VALE versus Governo ou VALE e Governo?

Nas últimas duas semanas vários jornais brasileiros vêm publicando matérias sobre a possível substituição do atual presidente da VALE no próximo governo. As matérias mencionam uma possível insatisfação quanto à atuação do atual presidente, Roger Agnelli, que não procurou seguir as recomendações do Planalto de agregar valor aos produtos da mineradora além do fato de comprar navios em estaleiros estrangeiros.

Acho importante fazer três comentários sobre o assunto. Primeiro, esse tipo de “intervenção” do governo em empresas privadas é algo que deve aumentar, pois o governo aumentou sua participação via BNDESPAR e fundos de pensão estatais em várias empresas, sem que esteja claro qual a contrapartida desse maior apoio estatal. Assim, do ponto de vista puramente racional, fatos como estes devem passar a ser cada vez mais comum, pois o Estado está se tornando sócio importante em várias empresas privadas.

Segundo, conheço vários empresários, diretores de banco e investidores externos que se relacionam com o governo e causa-me surpresa as críticas que escuto em uma mesa de jantar. Vários dos executivos que conheço têm receio de falar em “on” do que discordam da política econômica. Não entendo o por que desse receio, a não ser pelo simples fato de que mais cedo ou mais tarde eles se vêem na posição de precisar do governo. É claro que há exceções que confirmam a regra.

Terceiro, está acontecendo uma coisa surreal no Brasil. As pessoas confundem discordância de idéias com “maldade” ou mesmo com “pessimismo”. Sempre que escrevo artigos em jornais ou falo com a imprensa, algum amigo me fala: “parabéns pela coragem”. Coragem do quê? Estamos em uma democracia e cada um deve ter plena liberdade de expressar sua discordância em relação a ideias. Nunca vou entender por que aqueles que questionam a prioridade do investimento no “Trem Bala” serem considerados inimigos do Brasil.

Bom, estou curioso para ver como a novela da VALE vai terminar.  Por sinal, podemos pedir para VALE fazer mais pelo Brasil? Claro que podemos. É só fazer com a VALE o que se faz com a Petrobrás: injeta-se mais recursos públicos na companhia e se reduz a exigência de rentabilidade da empresa. E para justificar é só mostrar que o futuro do Brasil depende da VALE, como se faz hoje com a Petrobrás. Simples.

3 pensamentos sobre “VALE versus Governo ou VALE e Governo?

    • Não estou defendendo que o governo intervenha na Vale. Concordo com você: a Vale paga impostos e cumpre a lei. Estou apenas reconhecendo que como o governo está aumentando a participação em várias empresas privadas, cada vez mais ele se sente no direito (para o bem ou para o mal) de demandar maior participação nessas empresas. Assim, o que acho que está acontecendo com a Vale agora vai ainda acontecer, infelizmente, com muitas outras empresas na quais o governo aumentou sua participação.

  1. Sobre empresas estatais e privadas e o interesse nacional

    Lucro da Vale cresce 130% e chega a R$ 6,6 bi no segundo trimestre

    http://www1.folha.uol.com.br/mercado/774890-lucro-da-vale-cresce-130-e-chega-a-r-66-bi-no-segundo-trimestre.shtml

    “Segundo a companhia, além de refletir a crescente demanda global por minérios e metais, o resultado é reflexo ainda de custos operacionais sob controle e medidas para aumentar a produção. Em nota, a mineradora afirma tratar-se de seu melhor desempenho desde o choque financeiro global no terceiro trimestre de 2008.”

    Quando o presidente Hu Jintau esteve no Brasil comentou-se pela imprensa que um dos objetivos da visita era facilitar os contatos das siderúrgicas chinesas em busca de alternativas de fornecedores de minério de ferro. As três gigantes Vale, Rio Tinto e BHP Billiton são formadoras de preço do minério no mercado internacional. A Vale tem o controle estratégico dos portos de saída de minério. Isso impede, por exemplo, que os chineses negociem contratos de fornecimento com preços inferiores aos fixados pela Vale. Os chineses podem comprar à vontade e de quem quiser. Mas antes teriam que construir um porto para escoar esse minério.

    Eike Batista vê nos chineses uma fonte de capital para os US$ 50 bilhões que devem ser investidos na construção do Porto Açu, no Rio de Janeiro. O porto está em construção.

    Em novembro de 2009, a terceira maior siderúrgica da China, Wuhan Iron & Steel Group (WISCO), firmou contrato com a MMX Mineração e Metálicos para adquirir 22% de participação na companhia.

    Desde junho comenta-se nos meios de informação que a WISCO negociava um contrato de fornecimento de minério com a Venezuela. No final de julho, a WISCO revelou que fechou um contrato de longo prazo (7 anos) para compra de mineral de ferro da estatal Corporación Venezolana de Guayana (CVG) a um preço de 20 dólares por tonelada inferior ao fixado pela Vale para o terceiro trimestre de 2010.

    WISCO and Venezuela agree iron ore contract price for 2010

    http://www.steelorbis.com/steel-news/latest-news/wisco-and-venezuela-agree-iron-ore-contract-price-for-2010-544950.htm

    Precisaria confirmar, mas parece que o companheiro Chávez fechou o negócio tendo como base o marcador “preço Vale”, isto é, durante sete anos a WISCO comprará um total de 40 milhões de toneladas de minério venezuelano a um preço US$ 20 inferior ao “preço Vale” vigente nesse prazo. O minério da Venezuela tem qualidade semelhante ao exportado pelo Brasil.

    Pergunta

    Como fica o governo brasileiro que pressionou o Congresso a apoiar o ingresso da Venezuela no Mercosul?

    Para quem não sabe, as estatizações ocorridas na Venezuela, em nome do festejado “socialismo do século XXI”. prejudicaram a tal ponto as siderúrgicas e empresas de mineração que hoje o governo Chávez não vê outra saída a não ser submeter a soberania venezuelana aos interesses chineses.

    Chávez também fechou um “empréstimo” a troco de fornecimento futuro de petróleo com a China. Mas não se sabe a que preço e sob quais condições. Por exemplo, se o custo de frete foi subsidiado ou mesmo zerado para os chineses:

    “A China fornecerá financiamento de US$ 20 bilhões para ajudar no desenvolvimento da Venezuela, em condições que em nada têm a ver com as leoninas de organismos multilaterais de crédito como o Fundo Monetário Internacional”, ressaltou o chefe de Governo venezuelano, sem detalhar as condições desse desembolso, que ia assinar em Caracas com o presidente Hu Jintao.

    http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,chavez-consegue-ajuda-milionaria-da-china-em-troca-de-petroleo,539893,0.htm

    Atenção para a passagem: “leoninas [condições] de organismos multilaterais de crédito como o Fundo Monetário Internacional”.

    Pressupõe-se pela declaração de Chávez que submeter a soberania nacional venezuelana aos interesses chineses é preferível do que recorrer ao FMI.

    Na verdade, a China aproveita-se da terrível situação fiscal em que vive a pátria do socialismo do século XXI para esfolar a Venezuela:

    “En 2009 se duplicó déficit de las empresas públicas.”

    http://economia.eluniversal.com/2010/08/03/eco_art_en-2009-se-duplico-d_1992766.shtml

    “Morgan Stanley no descarta déficit de divisas en Venezuela”

    http://economia.eluniversal.com/2010/08/03/eco_art_morgan-stanley-no-de_1992768.shtml

    “Deuda pública interna de Venezuela ha crecido 2.427% desde 1998”

    http://www.guia.com.ve/noti/65118/deuda-publica-interna-de-venezuela-ha-crecido-2427-desde-1998

    “Déficit de divisas de más de US$7.500 millones registra el BCV en el movimiento diario de las reservas internacionales”

    http://www.guia.com.ve/noti/65119/deficit-de-divisas-de-mas-de-us$7500-millones–registra-el-bcv-en-el-movimiento-diario–de-las-reservas-internacionales

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