“Madalena, você não quer que eu volte”

Há medidas do governo que são difíceis de entender. Aqui da Inglaterra tenho evitado olhar muito para o que acontece no Brasil, mas minha esposa insiste em me manter atualizado, o que me fez lembrar do personagem Sebastião do humorista Jô Soares nos anos 80, o último exilado do governo militar que quer voltar para casa e conversa com a mulher no Brasil por telefone para saber as últimas notícias. A frase célebre do personagem é “Madalena, você não quer que eu volte”.

A minha reação foi mais ou menos essa quando soube que o Tesouro Nacional mais uma vez vendeu créditos (R$ 1,4 bilhão) que possui junto à Eletrobrás para o BNDES, repetindo operação que já havia feito no ano passado (R$ 3,5 bilhões), e uma nova medida provisória, a MP 500 de 30/08/2010, que abre a possibilidade do Fundo Soberano (FS) capitalizar a Petrobrás e outras empresas estatais. Quando o BNDES compra créditos do Tesouro Nacional junto a uma estatal o Tesouro se auto-financia, pois o BNDES vem recebendo empréstimos e novas capitalizações do Tesouro Nacional. Já a possibilidade de utilizar ou vir a utilizar recursos do FS para capitalizar estatais e, principalmente, a Petrobrás, é um absurdo, pois já se comprometeu muitos recursos públicos com a Petrobrás.

Aqueles que acham que mudanças apenas ocorrem quando há planos, pacotes ou mesmo reformas constitucionais, aconselho ler o capitulo 15 (Underdevelopment, Obstacles to the Perception of Change, and Leadership) do livro “A Bias for Hope” do economista Albert Hirschman de 1971. Segundo esse economista, os governos de países em desenvolvimento na América Latina adotavam, historicamente, uma maneira de promover mudanças graduais que passavam despercebida nesses países e no exterior, mas que cumulativamente levavam a mudanças importantes na economia. A passagem abaixo é suficiente para caracterizar esse ponto:

“A Polish mission recently visited Colombia and found out all at once about the many basic and not so basic economic activities which are at present in the hands of the government, the Central Bank, or other public bodies; not realizing that this state of affairs is the end result of a gradual process which had extended over a period of many years, the Poles are reported to have asked: “Excuse our ignorance, but in which year did you make The Revolution?”

(Hirschman, A. O. (1971). A Bias For Hope: Essays on Development and Latin America. New Haven: Yale University Press, pp. 334-335).

2 pensamentos sobre ““Madalena, você não quer que eu volte”

  1. Madalena esqueceu de te contar da capitalização do pré-sal … mais R$ 150 bilhões pra Petrobrás. Todo dinheiro do mundo é pouco pra esse dinossauro estatal.

  2. Depois de tanto tempo, esse bordão continua vivo e atualissimo, estou vivendo na Espanha e quando vejo os sites brasileiros e as notícias do dia a dia, comento com minha esposa :argareth, vc nao quer que eu volte!
    Abs

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