Argumentos Estranhos no Debate sobre o BNDES

Não vou antecipar aqui o artigo que vou publicar nos próximos dias no jornal Estado de São Paulo, mas os argumentos pró-BNDES que têm saído na imprensa mais distorcem a teoria econômica do que defendem o banco. O BNDES não precisa disso. Vou destacar três teses que me chamaram atenção nos últimos três dias.

Primeira Tese: Dívida para investimento causa crescimento sustentado.

Na segunda, artigo do Valor Econômico de autoria do professor Antônio Corrêa de Lacerda desenvolve o seguinte argumento: os empréstimos do Tesouro Nacional ao BNDES têm um efeito multiplicador que aumenta renda (PIB), aumentando o pagamento de impostos, o lucro do BNDES e os dividendos pagos pelo banco à União. Na margem, por esse raciocínio, a “bala de prata” para o crescimento do Brasil se resume a expandir a divida e emprestar para o investimento produtivo.

Assim, temos uma nova tese baseada no crescimento da dívida: aumento da dívida gera produção, novos impostos e mais crescimento. E o que acontece com a poupança, já que poupança (S) = investimento (I)? A poupança vai crescer, a doméstica, já que quem defende essas idéias também critica o déficit em conta-corrente, equivalente à poupança externa. Qual a evidência empírica para essa tese?

Segunda Tese: Países mais fechados ao comércio internacional crescem mais.

Na segunda-feira no mesmo jornal o atual presidente da FIESP, Benjamin Steinbruch, soltou uma bomba que é o fechamento temporário do país às importações. Traduzindo em linguagem coloquial ele quis dizer o seguinte: os consumidores devem pagar mais caros pelos produtos produzidos no Brasil para manter a taxa de lucro da indústria que, assim, poderá produzir mais e empregar mais. Ademais, para ajudar um pouco mais a indústria precisamos de três BNDES.

Temos aqui novamente uma nova tese: países mais fechados ao comércio mundial crescem mais rápidos porque sua indústria é mais forte. Será isso mesmo? E o exemplo utilizado da importação de aço? Se a essa altura do campeonato ainda precisamos de proteção para siderurgia, não sei mais o que não devemos proteger.

Por fim, acho que podemos até ter mais quatro e não três BNDES. Mas de onde vem os recursos? A FIESP apoiaria a criação de uma nova fonte de poupança forçada para financiar os novos BNDES?

Terceira Tese: Política monetária restritiva deve afetar apenas o consumo.

Por fim, artigo do professor Antonio José Alves Junior do BNDES no Valor Econômico desta quinta-feira argumenta, em outras palavras, que é bom que a política monetária afete apenas o consumo e não o investimento. Bom, mas se afeta apenas uma parte da demanda agregada isso não significaria que a eficácia é menor e a queda do consumo teria que ser maior? Ademais, a ampliação do PSI neste ano ocorreu em um conjuntura no qual os investimentos iriam ocorrer de qualquer forma pois a expectativa de demanda era crescente.

Conclusão: Tenho dificuldades de entender os argumentos acima, mas tenho certeza que em todos eles quem paga a conta é o consumidor. Esse fato nunca é explicitado nessas “teses” a favor do crescimento do país. Podemos continuar fazendo política industrial sem precisar tergiversar a teoria econômica e nesse debate o que se quer saber são coisas muito mais simples.

2 pensamentos sobre “Argumentos Estranhos no Debate sobre o BNDES

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