O que discordo dos meus colegas economistas

Depois de ler todas as entrevistas da Revista IHU On-Line, que traz um debate sobre a economia brasileira (ver post anterior neste blog), notei que há mais divergência do que convergência entre as minhas idéias e dos demais economistas, com exceção do economista Regis Bonelli. Acho que vale ressaltar quatro pontos.

Primeiro, da mesma forma que Bonelli, não acredito que estejamos a beira de um abismo. O Brasil está em uma situação confortável de crescimento na faixa de 4 a 4,5% ao ano, independente do sucesso ou não da política industrial. Na verdade, sem política industrial, os setores que mais estariam crescendo seriam provavelmente os mesmos: indústria extrativa, siderurgia, cadeia de petróleo e gás, agronegócios, alimentos e bebidas.

Segundo, todos os demais economistas, excluindo Eu e Bonelli, mostram uma preocupação excessiva com a taxa de câmbio que deveria ser mais desvalorizada. Alguns falam em controle da entrada de capital e outros deixam a entender uma atuação mais ativa do Banco Central ou Tesouro. Uma política de compra mais agressiva por parte do Banco Central tem custos e nenhum deles explicita isso. O Professor Oreiro fala na criação de um fundo de estabilização cambial e um fundo patrocinado com recursos do Tesouro Nacional, mas não diz de onde vem os recursos: de mais um aumento na carga tributária? Do corte de gastos, mas de quais gastos? O problema hoje no Brasil é que temos alguns setores da economia que são muito mais competitivos (rentabilidade/patrim. liquido) que os demais e, assim, mesmo com uma taxa de câmbio (R$/US$) mais elevada, esse problema continuaria. Veja na tabela abaixo a diferença de rentabilidade entre os setores de mineração versus calçados e têxtil. Nenhuma taxa de câmbio corrigiria essa diferença relativa.

Rentabilidade Setorial Média das 1.000 Maiores Empresas no Brasil

Fonte: Valor Econômico 1000, edição 2006, 2007 e 2008. Rentabilidade: lucro ou prejuízo do exercício dividido pelo Patrimônio Liquido (PL).

Terceiro, vários dos economistas que se manifestaram a favor da internacionalização de empresas brasileiras tomam como pressuposto que, quando uma empresa se torna maior e se internacionaliza, o benefício privado será, necessariamente, igual ao benefício social. Não é verdade que uma empresa brasileira internacionalizada tende a ter sua rede de fornecedores formada por empresas nacionais e mesmo que os fornecedores nacionais serão beneficiados. Da mesma forma, a nossa internacionalização ocorre em setores nos quais já somos competitivos e fica a dúvida porque o setor privado não financia esse movimento.

Quarto,  apenas Eu e Regis Bonelli falamos na questão do custo das políticas setoriais e da necessidade de que esses custos sejam avaliados. Ao que parece, vários dos nossos colegas acreditam que políticas setoriais não tem custo ou que o benefício dessas políticas é muito maior que o custo. Sinceramente, não entendo porque. Por exemplo, a taxa interna de retorno real da pré-escola no Brasil é de cerca de 15,7% ao ano; muito acima da taxa juros real paga pelo governo em sua dívida (em torno de 6% real ao ano para a selic atual) – ver Fernando Holanda Barbosa Filho e Samuel Pessoa (2008). Assim, se o critério for apenas o benefício, deveríamos aumentar urgentemente a dívida para investir na pré-escola pois o retorno é líquido e certo. Os recursos públicos são limitados e precisamos discutir melhor os custos das políticas, inclusive, das setoriais.

Um pensamento sobre “O que discordo dos meus colegas economistas

  1. Perfeito.
    Tb não vejo o qto a “suposta depreciação” do câmbio.
    O câmbio é relação de paridade entre moedas e não projeto de desenvolvimento industrial.
    Pessôa e Cavalcanti (FGV) escreveram um artigo fantástico sobre a suposta necessidade de política industrial para o Brasil.
    Este “paper” deveria ser obrigatório!
    Brados
    Martins
    Ps: parabéns pela coragem!

Os comentários estão desativados.