Bancos públicos devem mostrar como trazem ganhos sociais

Nesta semana, o governo divulgou que vai fazer mais uma capitalização no BNDES e  na CEF com parte do excedente que a União possui no capital da Petrobrás. Essa operação não aumenta nem diminui a Divida Liquida do Setor Públicos (DLSP) porque constitui a troca de um ativo por outro. Adicionalmente, participações do governo em empresas estatais, ao contrário do crédito, não são contabilizados na DLSP. Segue abaixo uma breve análise que fiz para o jornal Estado de São Paulo.

sábado 28 de agosto de 2010

Bancos públicos devem mostrar como trazem ganhos sociais

Análise: Mansueto Almeida para O Estado de S.Paulo

O governo vem, desde 2007, capitalizando a Caixa Econômica Federal e o BNDES para aumentar a capacidade de empréstimos desses dois bancos. Essas capitalizações vinham ocorrendo, preponderantemente, por meio de empréstimos concedidos aos bancos públicos com prazo de vencimento longo. Essas operações são mais convenientes do que uma capitalização pura e simples porque criam um crédito (o empréstimo aos bancos públicos) que compensa o débito (dívida emitida). Não se afeta, portanto, a dívida líquida do setor público, uma das variáveis mais importantes nas análises fiscais.

Mas há um limite para a participação desse tipo de capital no valor do capital total. Assim, a capitalização com ações da Petrobrás evita que se bata nesse limite. Além disso, como não é empréstimo, os bancos públicos não ficam na obrigação de pagar juros ao Tesouro Nacional.

Para um investidor privado, aquela operação significaria apostar numa rentabilidade maior dos bancos públicos (BNDES e CEF) do que da estatal de petróleo. Mas, para a União, um ente público, a medida tem menos a ver com rentabilidade do investimento e mais com uma decisão legítima de política econômica, que neste caso significa o fortalecimento dos bancos públicos.

Na prática, é como se o Tesouro Nacional vendesse parcela de sua participação na Petrobrás, e, com o dinheiro arrecadado, capitalizasse os bancos públicos, em vez de utilizar o “recurso arrecadado com a venda de ações” para construir mais hospitais, ou mais escolas, abater mais dívida, reduzir parcela dos impostos que incide sobre a folha salarial ou até mesmo diminuir a cessão de barris concedidos para capitalização da Petrobrás.

Dado que se fez opção pelo fortalecimento de bancos públicos, faz-se cada vez mais necessário que essas instituições expliquem de que forma suas operações de empréstimos trazem mais ganhos sociais do que ganhos privados. Esse debate é necessário e saudável em uma democracia, principalmente em um país de desigualdade de renda tão elevada como o Brasil, que precisa avaliar e monitorar de forma cuidadosa o uso alternativo de recursos públicos.

MANSUETO ALMEIDA É ECONOMISTA DO IPEA

Uma homenagem merecida: Marcos Lisboa

Foto: Ana Araújo

Vou fazer uma apresentação desnecessária. Estive com ele não mais do que três vezes, mas temos um amigo em comum e sou amigo de vários dos seus ex-orientandos na EPGE-FGV. Esse economista e professor a que me refiro se chama Marcos Lisboa, que foi, merecidamente, agraciado com o prêmio de “Economista do Ano”, concedido pela Ordem dos Economistas do Brasil na última segunda-feira dia 23 de agosto em São Paulo. Um prêmio para lá de atrasado.

Pena que o governo e academia perderam alguém do porte dele para o mercado financeiro, pois hoje faz falta alguém com a visão do Marcos Lisboa na Esplanada dos Ministérios e seu jeito até meio tímido de convencer seus interlocutores e sua natural habilidade, pelo que sei, de evitar conflitos.

Hoje recebi o texto/discurso que Marcos Lisboa pronunciou por ocasião de sua premiação como o melhor economista do ano em São Paulo e confesso que achei o texto fabuloso por pelo menos quatro motivos. Primeiro, traduz em poucas páginas e de forma simples a evolução das teorias de crescimento, mostrando o papel crescente que passou a ter as instituições no processo de crescimento econômico.

Segundo, mostra que o Brasil de hoje é resultado de uma série de reformas institucionais que adotamos desde o final dos anos 80 (abertura comercial, sistema de câmbio flutuante, lei de responsabilidade fiscal, etc.) e de outras mais recentes (crédito consignado, nova lei de falências, etc.) que melhoraram o ambiente de negócios e trouxeram maior segurança jurídica aos contratos. Ele sutilmente escreve nas entrelinhas contra-argumentos para enfatizar suas teses como, por exemplo, quando questiona a tese da falta de concorrência no mercado financeiro. Se a tese fosse válida, como explicar a queda brutal da taxa de juros do crédito pessoal decorrente do instrumento do crédito consignado?

Terceiro, alerta que precisamos de um maior rigor na avaliação de politicas públicas, tanto do ponto de vista de análise custo-benefício como também na comparação dos resultados alcançados em relação às metas esperadas. Chega a propor a criação de uma agência de avaliação independente, o que pode ser uma boa idéia.

Quarto, alerta que no Brasil temos sim um elevado custo de transação tanto para o investimento público quanto para o privado. No caso do público, há um sério problema de indefinição de responsabilidades e de prazos na concessão de licenças ambientais. No caso do privado, nossa estrutura tributária traz distorções que prejudicam o investimento.

Em um discurso/texto de 18 páginas Marcos Lisboa conseguiu fazer uma reflexão mais profunda sobre o crescimento do Brasil do que os debates superficiais que estão caracterizando essa campanha eleitoral e os programas de governo. Independentemente de concordar ou não com suas idéias, o texto/discurso é uma leitura quase obrigatória para quem pensa o Brasil (clique aqui para ler o texto de Marcos Lisboa).

Nova Carta do IBRE sobre a tese da desindustrialização

O IBRE-FGV publicou hoje sua nova carta de conjuntura, uma espécia de editorial da revista conjuntura econômica no qual o conjunto de economistas da FGV discutem algum tema em debate no Brasil. Considero um dos melhores editoriais de economia produzido todos os meses no Brasil.

A carta deste mês (clique aqui) traz o oportuno debate sobre a desindustrialização. A análise evita conclusões simplistas de que “a economia brasileira vem passando por um processo de desindustrialização” , pois, historicamente, o Brasil tinha uma participação da indústria no PIB acima daquela que prevalecia para a média de países semelhantes ao Brasil. Assim, a queda da indústria no PIB representaria uma correção para à  média e, até 2008, não haveria suporte para a tese da desindustrialização.

Segundo, a carta não descarta que possa haver uma queda futura ainda maior na participação da indústria no PIB e mesmo uma primarização ainda maior da pauta exportadora. Esse é um debate em aberto e a revista pede mais estudos sobre o assunto.

Excelente análise e, ao contrário dos pessimistas de plantão, a indústria não está desaparecendo.

Reajustes do mínimo elevam gastos da União

Em fevereiro deste ano, ao longo do carnaval, sentei para analisar o crescimento das contas públicas. Faço isso desde 2004 junto com o economista e amigo Samuel Pessoa do IBRE-FGV (que ao contrario de mim adora carnaval). Sempre escrevemos uma nota técnica para circular entre um grupo de economistas para ver a reação às nossas idéias sobre a questão fiscal.

Uma das coisas que particularmente me fascina no debate fiscal é que todos acham que choque de gestão implica, necessariamente, em redução de gastos que vai abrir espaço para continuar com a política de valorização do mínimo e aumento do investimento público. Acontece que o tamanho do custeio é pequeno frente as transferências e, assim, não há choque de gestão que leve a uma economia de recursos para aumentar os gastos sociais e investimento e, ainda assim, reduzir carga tributária.  O Brasil vai continuar com uma carga tributária elevada, pois esse é o contrato social vigente.

Essa matéria do Ribamar Oliveira no Valor Econômico de hoje reflete muito do que colocamos nesta nota técnica de fevereiro deste ano, cujo resumo publicamos em artigo para o Valor Econômico em março (ver aqui).

Valor Econômico – 23 de agosto de 2010

Contas públicas: Entre 2003 e 2009, 80% do aumento de despesas foi provocado pela alta do piso salarial

Reajustes do mínimo elevam gastos da União

Ribamar Oliveira, de Brasília

Ruy Baron/Valor

Mansueto Almeida, do Ipea: estrutura tributária é altamente regressiva

A política de valorização do salário mínimo teve forte impacto sobre o gasto público durante o governo Lula. De 2003 a 2009, as despesas primárias do governo federal (não consideram o pagamento de juros ou amortizações de dívidas) subiram 2,5 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) e 80% desse total decorreu da elevação do piso salarial, segundo levantamento feito pelos economistas Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas (FGV), e Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Quando se aumenta o valor do mínimo, os gastos com benefícios previdenciários e com vários programas sociais – que usam o piso como referência -, como o abono salarial e o seguro-desemprego, sobem na mesma proporção. Somente as despesas do regime geral de Previdência Social, mais conhecido como INSS, foram responsáveis por 47% da elevação das despesas do governo federal, como proporção do PIB, no período considerado.

Outro dado expressivo do levantamento feito pelos dois economistas é que 90% do aumento das despesas do governo federal de 2003 a 2009 decorreu dos benefícios previdenciários e dos programas sociais, não apenas os vinculados ao salário mínimo, mas também o Bolsa Família. Os gastos com saúde e educação aumentaram no governo Lula, em proporção do PIB, mas em menor intensidade. As despesas de custeio, no seu conceito restrito, ou seja, apenas os gastos com a máquina pública (luz, água, telefone, viagens, diárias etc.), excluídas as despesas com pessoal e o custeio com educação e saúde, caíram, como mostra a tabela abaixo.

Os gastos com pessoal e encargos sociais, por sua vez, mantiveram-se estáveis, em proporção do PIB. “O perfil das despesas públicas durante o governo Lula mostra que não houve gastança, pois não se pode dizer que transferência de renda para as famílias seja gastança”, disse  Pessoa.

Na avaliação de Almeida, o aumento das transferências no ritmo verificado durante o governo Lula teve um lado positivo e outro negativo. “A sociedade quis essa despesa, pois considerou que era importante uma intervenção do governo no sentido de melhorar a distribuição de renda do país e de prover serviços públicos essenciais que as pessoas mais pobres utilizam”, explicou. O lado ruim, observou o economista, é que o financiamento desse gasto foi feito por uma estrutura tributária altamente regressiva, o que reduziu os efeitos sobre a distribuição de renda.

Segundo Almeida, os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) gastam mais ou menos a mesma coisa que o Brasil em programas sociais, mas os efeitos sobre a distribuição de renda são maiores, porque o sistema tributário nesses países é menos regressivo. Os mais pobres são os que mais pagam impostos no Brasil, proporcionalmente, pois o peso dos tributos que incidem sobre o consumo é muito grande.

Nos últimos dez anos (1999 a 2009), a despesa do governo federal cresceu 4,3 pontos percentuais do PIB, o que dá uma média de  0,4 ponto percentual ao ano. Essa elevação das despesas resultou em aumento na mesma proporção da carga tributária. “A sociedade aceitou um aumento anual médio da despesa em 0,4 ponto percentual, pois tinha a expectativa da melhoria na distribuição de renda e dos serviços públicos oferecidos à população”, analisou Pessoa. Ele lembrou, no entanto, que a manutenção desse contrato social requer, daqui para frente, uma carga tributária crescente.

Essa elevação da carga poderá ser feita por um aumento puro e simples dos tributos em vigor, pela criação de outro ainda inexistente ou decorrer de um aumento da formalização da economia e da eficiência da máquina arrecadadora, como tem ocorrido nos últimos anos. Há no Congresso um movimento, liderado pelos parlamentares da frente da saúde, no sentido de criação da Contribuição Social da Saúde (CSS), nos mesmos moldes da extinta Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), mas com alíquota mais reduzida, de 0,1%.

As principais lideranças do PMDB já manifestaram a concordância com a criação da CSS, que conta também com apoio do PT e dos outros partidos de esquerda. Mas é improvável que, após aprovada a CSS, o novo governo consiga manter os gastos com a saúde no patamar atual, desviando os recursos já destinados à área para outras finalidades, como ocorreu no passado. Por isso, a questão do financiamento da expansão do gasto público permanecerá, mesmo com a instituição da CSS.

Para Almeida, o futuro governo terá que ampliar os investimentos públicos, porque serão realizados no Brasil eventos de grande repercussão mundial, como a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Mas ele disse que não será possível ampliar o espaço para o investimento com o corte de gastos de custeio da máquina pública. “A conta do custeio é muito pequena para fazer um choque fiscal e aumentar o investimento público”, afirmou. Para aumentar os investimentos, o economista acha que o governo terá que decidir entre a elevação da carga tributária ou a redução do ritmo de alta do salário mínimo.

Os economistas fizeram o levantamento sobre a evolução dos gastos públicos no Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi). Esses dados se referem às despesas pagas pelo Tesouro no ano. A elevação ocorrida nos gastos com saúde e  educação, em proporção do PIB, resultou principalmente das transferências feitas pelo governo federal para Estados e municípios, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

Fonte: Valor Econômico – 23 de agosto de 2010

Arminio Fraga sobre BNDES

23/08/2010

Nesta segunda-feira, o jornal Valor Econômico traz matéria interessante com o economista e ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga (clique aqui). É interessante como concordamos com muitas coisas, como, por exemplo:

1) “….Para Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos, de imediato o banco deveria “racionar” os empréstimos subsidiados, evitando concedê-los para grandes empresas – “para que emprestar para a Petrobras?”

Questiono o mesmo no meu artigo de julho no valor econômico – clique aqui.

2) “.. Por mais dinheiro que o governo coloque no banco – foram R$ 208 bilhões desde 2008, e muito provavelmente o Tesouro ainda tenha que fazer algum reforço no Orçamento para 2011 – não haverá crédito suficiente para a enorme demanda do país por investimentos.”

No Brasil, muitos têm a impressão que o governo tem o poder de criar poupança por emissão de dívida.  Meu artigo no Valor Econômico de abril deste ano com o meu colega Alexandre Manoel questiona essa “sabedoria” (clique aqui). Essa preocupação do Armínio é legítima.

3) “Armínio diz que o país carece mesmo de um estudo mais acurado sobre o “benefício social” dos financiamentos subsidiados do BNDES, instituição que está completando quase 60 anos. “Acho que a pergunta correta é se isso contribuiu para o desenvolvimento do país, que significa tanto o crescimento econômico quanto seus aspectos distributivos, na medida em que um país desigual como o nosso só vai se desenvolver quando a desigualdade for menor.”

Esse é novamente um dos pontos chaves da discussão atual sobre o papel do BNDES e da nossa política industrial. O benefício social deve estar acima do benefício privado para justificar o apoio a grupos privados por meio de política industrial. E nós temos experiências exitosas de política industrial que os ganhos sociais foram superiores aos privados. Exemplo? Que tal o caso da EMBRAPA que inovava e das EMATER dos anos 70 e 80 que levavam a inovação da EMBRAPA aos pequenos, médios e grandes produtores no setor agrícola. Isso é política “industrial” de sucesso na agricultura.

Meu novo artigo no Estado de São Paulo: O que queremos do BNDES?

Já havia prometido a mim mesmo que não iria escrever mais sobre esse assunto, mas notei que os defensores do BNDES não estavam dicutindo o básico:  O que esperamos do BNDES e, se queremos um BNDES mais forte, qual será a fonte de recursos para o seu fortalecimento? perguntas básicas que precisamos debater e responder. Assim, inquieto por uma noite de insônia resolvi fazer algo que detesto: olhar os balanços do banco e as demonstrações financeiras para escrever este artigo.

Jornal O Estado de São Paulo – 21 de agosto de 2010 – página A2

O que queremos do BNDES?

A demanda por maior transparência quanto ao custo dos empréstimos do Tesouro Nacional ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se transformou numa falsa batalha entre quem é a favor e quem é contra esse banco. Esse debate deveria focar duas questões simples: o que se espera do BNDES e a fonte de recursos para ele. Mas os que tomam a si “a defesa do BNDES” podem estar, na verdade, prejudicando o banco com argumentos falaciosos.

Primeiro, muitos dizem que o endividamento do Tesouro Nacional para capitalizar o BNDES gera lucro para o banco, que volta na forma de dividendos para o Tesouro. De 2001 a 2009, o ano de maior resultado do banco antes do pagamento de impostos foi 2007, R$ 10 bilhões, para um desembolso total de R$ 64,9 bilhões. Em 2009 o banco desembolsou mais que o dobro de 2007, R$ 137,4 bilhões, e o lucro foi de R$ 9 bilhões. Ou seja, não há absolutamente nenhuma relação direta entre desembolsos do BNDES e o seu resultado. Ademais, parte dos dividendos pagos pelo banco à União em 2009 foram retidos de anos anteriores. Em 2007, por exemplo, para um resultado de R$ 10 bilhões, apenas R$ 924 milhões foram recolhidos à União na forma de dividendos.

Segundo, muitos argumentam que é provável que a diferença entre TJLP e Selic desapareça ao longo do tempo e, assim, o custo fiscal dos empréstimos do Tesouro ao BNDES poderia desaparecer. Sim, é possível que haja uma convergência entre essas taxas no longo prazo, mas é também verdade que hoje a diferença de 4,75 pontos porcentuais entre elas representa um custo financeiro de mais de R$ 8 bilhões ao ano em cima dos R$ 180 bilhões emprestados pelo Tesouro ao BNDES. Adicionalmente, a sequência de aumentos da dívida pública bruta altera a trajetória da Selic e dificulta a convergência. Quanto mais o governo emitir títulos para esterilizar a acumulação de reservas e/ou emprestar ao BNDES, maior será a taxa de juros cobrada pelo mercado, dada a baixa poupança doméstica, e mais difícil será essa convergência.

Terceiro, o esporte comum no Brasil de hoje é jogar pedras no “incompetente Banco Central, que atrapalha o crescimento do Brasil”. O engraçado é que o presidente do BC, Henrique Meirelles, ao contrário dos ministros da Fazenda e do Planejamento e dos secretários do Tesouro Nacional e da Receita Federal, foi o único mantido no cargo ao longo dos oito anos do governo Lula. O que parece indicar que nosso presidente acredita na competência de Meirelles, que teve seu cargo elevado à categoria de ministro de Estado apenas neste governo. O presidente da República jamais faria isso com alguém supostamente “incompetente”.

Quarto, alguns economistas defendem os empréstimos subsidiados do Tesouro ao BNDES porque as taxas de juros dos empréstimos na China são menores e, assim, o governo, via BNDES, tem o dever “cívico” de baratear o custo do crédito para as empresas brasileiras que competem num mundo globalizado. Há muitas coisas no Brasil que são diferentes da China, como, por exemplo, a carga tributária, que é de menos de 20% do PIB lá e de 36% do PIB aqui, além do nosso raquítico investimento em infraestrutura – ver comunicados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) n.º 52 e n.º 54 de 2010.

A verdade é que há hoje o sentimento de que todos os problemas de crescimento do Brasil podem ser resolvidos pelo fortalecimento do BNDES, sem que se discuta de quanto o banco precisa para essa tarefa hercúlea. O principal funding do BNDES são os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – 40% da arrecadação anual do PIS/Pasep que é emprestada ao BNDES e paga ao longo do tempo à medida que o FAT necessite desses recursos. Na média dos últimos três anos, os empréstimos do FAT ao BNDES foram de R$ 10,9 bilhões, mas quando se computam os pagamentos do banco ao fundo, a entrada líquida de recursos ficou, na média, em só R$ 2 bilhões ao ano.

Some-se a esses recursos o retorno dos investimentos antigos, que nos últimos três anos ficou na faixa de R$ 50 bilhões a R$ 70 bilhões, e temos um banco com perto de R$ 72 bilhões para empréstimos anuais. É claro que o BNDES tem outras fontes de recursos (carteira de renda variável, captação interna e externa), mas estes mal compensam os desembolsos do banco com serviços da dívida e com despesas tributárias e administrativas. Assim, sem recursos do Tesouro o BNDES não tem capacidade de empréstimo anual muito acima de R$ 70 bilhões.

Chegou a hora de a sociedade decidir o que quer do BNDES. Deve ser um banco voltado principalmente para o financiamento de projetos de infraestrutura? Que tipo de projetos? Qualquer projeto ou de preferência aqueles em que o retorno social seja maior que o privado? Que volume de recursos o banco deverá pôr à disposição para financiar as exportações e os investimentos de longo prazo? O BNDES deve financiar a internacionalização de empresas? Que tipo de empresas, em que condições e qual o volume de recursos alocados para essa finalidade? O BNDES deve financiar operações de fusões e aquisições? Em que setores e por quê?

O que os “supostos críticos” do BNDES querem é que essas perguntas sejam respondidas. A sociedade pode até decidir que é necessário aumentar alguns impostos ou criar um novo para aumentar a capacidade de empréstimo do banco. O mais interessante nesse debate é que os que se autodenominam “defensores do investimento” não querem debater como podemos fortalecer o BNDES que não seja pelo aumento da dívida pública. Talvez o presidente do banco, Luciano Coutinho, seja um dos poucos que entendem esse problema e por isso tenha defendido, em entrevista ao Estado (25/10/2009), a necessidade de aumento da poupança pública. O que estamos fazendo hoje via BNDES é aumentar a dívida para aumentar o investimento público e privado, algo que já fizemos na segunda metade dos anos 1970 e “não poderia ter dado errado”.

MANSUETO ALMEIDA É TÉCNICO DE PLANEJAMENTO E PESQUISA DO IPEA

Argumentos Estranhos no Debate sobre o BNDES

Não vou antecipar aqui o artigo que vou publicar nos próximos dias no jornal Estado de São Paulo, mas os argumentos pró-BNDES que têm saído na imprensa mais distorcem a teoria econômica do que defendem o banco. O BNDES não precisa disso. Vou destacar três teses que me chamaram atenção nos últimos três dias.

Primeira Tese: Dívida para investimento causa crescimento sustentado.

Na segunda, artigo do Valor Econômico de autoria do professor Antônio Corrêa de Lacerda desenvolve o seguinte argumento: os empréstimos do Tesouro Nacional ao BNDES têm um efeito multiplicador que aumenta renda (PIB), aumentando o pagamento de impostos, o lucro do BNDES e os dividendos pagos pelo banco à União. Na margem, por esse raciocínio, a “bala de prata” para o crescimento do Brasil se resume a expandir a divida e emprestar para o investimento produtivo.

Assim, temos uma nova tese baseada no crescimento da dívida: aumento da dívida gera produção, novos impostos e mais crescimento. E o que acontece com a poupança, já que poupança (S) = investimento (I)? A poupança vai crescer, a doméstica, já que quem defende essas idéias também critica o déficit em conta-corrente, equivalente à poupança externa. Qual a evidência empírica para essa tese?

Segunda Tese: Países mais fechados ao comércio internacional crescem mais.

Na segunda-feira no mesmo jornal o atual presidente da FIESP, Benjamin Steinbruch, soltou uma bomba que é o fechamento temporário do país às importações. Traduzindo em linguagem coloquial ele quis dizer o seguinte: os consumidores devem pagar mais caros pelos produtos produzidos no Brasil para manter a taxa de lucro da indústria que, assim, poderá produzir mais e empregar mais. Ademais, para ajudar um pouco mais a indústria precisamos de três BNDES.

Temos aqui novamente uma nova tese: países mais fechados ao comércio mundial crescem mais rápidos porque sua indústria é mais forte. Será isso mesmo? E o exemplo utilizado da importação de aço? Se a essa altura do campeonato ainda precisamos de proteção para siderurgia, não sei mais o que não devemos proteger.

Por fim, acho que podemos até ter mais quatro e não três BNDES. Mas de onde vem os recursos? A FIESP apoiaria a criação de uma nova fonte de poupança forçada para financiar os novos BNDES?

Terceira Tese: Política monetária restritiva deve afetar apenas o consumo.

Por fim, artigo do professor Antonio José Alves Junior do BNDES no Valor Econômico desta quinta-feira argumenta, em outras palavras, que é bom que a política monetária afete apenas o consumo e não o investimento. Bom, mas se afeta apenas uma parte da demanda agregada isso não significaria que a eficácia é menor e a queda do consumo teria que ser maior? Ademais, a ampliação do PSI neste ano ocorreu em um conjuntura no qual os investimentos iriam ocorrer de qualquer forma pois a expectativa de demanda era crescente.

Conclusão: Tenho dificuldades de entender os argumentos acima, mas tenho certeza que em todos eles quem paga a conta é o consumidor. Esse fato nunca é explicitado nessas “teses” a favor do crescimento do país. Podemos continuar fazendo política industrial sem precisar tergiversar a teoria econômica e nesse debate o que se quer saber são coisas muito mais simples.