Recomendo assitir..Milton Friedman (Free to Choose)

Independente de você compartilhar ou não das idéias do economista Milton Friedman, vale a pena assistir a série (em inglês) filmada com o prof. Friedman na década de 80 pela TV pública americana (PBS). A série traz 10 episódios sobre temas que continuam atuais e, em cada episódio, há um fervoroso debate  (nos 30 minutos finais de cada programa) na bilioteca da universidade de Chicago entre o Prof. Milton Friedman e vários políticos, economistas, sindicalistas etc. sobre as idéias apresentadas por Friedman em cada programa.

O link para assistir a versão com legendas em português na internet é http://freetochoosebr.blogspot.com/ e para assitir sem legendas é: http://miltonfriedman.blogspot.com/  OBS: na versão com legenda em português há apenas 3 episódios disponíveis (1,2 e 3).

Bom artigo do prof. Márcio Garcia….

 Hoje, dia 31 de julho, o economista e profesor Márcio Garcia pubicou um bom artigo (clique para ver o artigo no link: Tratamento Inadequado) no jornal Valor Econômico no qual critica tanto o governo quanto a oposição pelo que chama da “pobreza do debate econômico atual”. Não se discute mais a qualidade da expansão fiscal, a agenda de reformas, etc.

Como estamos melhores do que outros países que foram surpreendidos pela crise atual, essa melhora relativa parece que levou a um comodismo geral seja dos economistas seja dos políticos.

As pessoas no Brasil tem que aprender que discutir o mérito das políticas não siginifica ser contra essas políticas ou mesmo contra às pessoas encarregadas de sua formulação. Precisamos ser mais acadêmicos e aceitar um debate mais aberto do que simplesmente não discutir.

Mais poder para o BNDES fazer política industrial

Bancos de desenvolvimento atuam tanto pela via do empréstimo, quanto pela aplicação direta em empresas (compra de participação nas empresas) para promover empresas em determinados setores – política industrial. Há tempos o BNDES vem aumentado sua participação em grandes empresas e com o aumento dos preços das ações desde 2002, a carteira de ações do grupo BNDES começou a ficar acima do limite de 50% do Patrimônio de Referência (PR). Como os bancos não podem ter mais que 50% do seu PR imobilizado, isso começou a gerar problemas para atuação do BNDES, já que o valor das ações de propriedade do grupo BNDES é contabilizado no balanço pelo valor contábil e não pelo valor de mercado.

Como o BNDES terá que a partir de janeiro de 2010 registrar suas participações acionárias pelo valor de mercado, essas participações ficariam acima do limite de 50% do PR. Vamos aos números. De acordo com o Balanço Contábil do BNDES de 2008 (ver pp. 55), o valor das participações societárias do BNDES no final de 2008 correspondia a R$ 25,2 bilhões pelo valor contábil, mas a R$ 52,8 bilhões pelo valor de mercado. Na mesma data, o Patrimônio de Referência do banco estava por volta de R$ 37,7 bilhões (soma de R$ 25,5 bilhões do Patrimônio Líquido com R$ 12,2 bilhões de dividas subordinadas elegíveis a capital). Ou seja, o valor de mercado das participações do BNDES no final de 2008 (R$ 52,8 bilhões) já era superior em mais de R$ 30 bilhões a 50% do valor do PR que era de R$18,8 bilhões (50% de R$ 37,7).

 O que fazer? O Conselho Monetário Nacional (CMN) mudou essa regra na reunião do dia 29/07/2009, permitindo que o BNDES siga até 2021 um cronograma de ajuste para se adequar ao limite, mas criou uma nova regra que também permite que o BNDES retire do seu ativo imobilizado até 2012, as operações de fomento já contratadas e que venham a ser fechadas daqui por diante.

Em resumo, na verdade, a nova regra vai dar mais e não menos flexibilidade ao BNDES porque muitas de suas participações acionárias serão claramente classificadas como “atividades de fomento”. Talvez seja melhor de uma vez por todas termos uma legislação mais clara e específica para o BNDES ao invés de ficarmos modificando a legislação no “varejo”.

Quem com ferro fere…..

Duas notícias hoje do Estado de São Paulo (edição do dia 29 de Julho de 2009) me chamaram atenção. Em uma delas, o presidente da CNI pede mais ação do governo para combater a crise, modificando a política industrial para se adequar ao novo contexto da crise. O artigo (Crise exige revisão da política industrial)  é vago, pede como sempre mais apoio do governo e, como sempre, uma reforma tributária que, na prática, significa uma menor carga tributária (só não explica quais tipos de gastos seriam cortados para tornar possível uma menor carga tributária). Ou seja, os empresários querem mais política industrial com menos impostos – o melhor dos mundos sem risco.

Mas como o mesmo Estado que o protege pode ser aquele que pode “confiscar a sua riqueza”, um velho e conhecido dilema da ciência política, o mesmo jornal traz uma matéria interessante (Candidato de Lupi vence e provoca racha no Codefat) da intervenção do ministro do trabalho na eleição do Codefat, que levou a retirada de todas as associações patronais do órgão como forma de protesto– com exceção das duas associações criadas sobe as bênçãos do Ministério do Trabalho: Confederação Nacional do Turismo (CNTur) e a Confederação Nacional de Serviços (CNS). Essa última foi o pivô da crise, já que com o apoio do Ministro o seu presidente foi eleito para presidir o Codefat quando já existia um acordo informal para a eleição do presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).

Qual é a política Industrial do Brasil?

segue abaixo artigo de minha autoria, discutindo o que chamo da “real” politica industrial do governo brasileiro. Não sou contra politica industrial, mas precisamos ser mais claro na avaliação da politica industrial para evitar os erros que cometemos no passado.

Mansueto

Valor Econômico – 17 de julho de 2009

Sem a definição de objetivos claros, corre-se o risco de enriquecer uns poucos

A velha nova política industrial

Mansueto Almeida
17/07/2009

Se vamos incentivar setores em que já somos competitivos, como ocorre, não precisamos de política industrial

Depois da retração do Estado na promoção de atividades produtivas que marcou os anos 90, a década identificada com o Consenso de Washington, a atual presencia o forte retorno do Estado na promoção de atividades econômicas por meio do que se denomina políticas industriais. Atualmente, todos os países da América Latina, em graus diferentes, adotam algum tipo de política industrial.

Essas políticas incluem desde incentivos ao crescimento de micro e pequenas empresas de uma mesma atividade (os clusters ou APLs), passando por incentivos à inovação, até políticas direcionadas à concentração de setores e formação de grandes grupos empresariais. Atualmente, ser a favor de política industrial é ser moderno e ser contra essas políticas é ser atrasado, confiar excessivamente na mão benevolente do mercado que, segundo alguns, nos levou à crise atual.

O problema é que as políticas adotadas pelo governo brasileiro, na prática, não correspondem àquelas amplamente anunciadas nos documentos oficiais, não há indicadores para que essas políticas sejam avaliadas e, em muitos casos, as ações adotadas são contraditórias à própria definição de “política industrial”. Vejamos alguns exemplos do que está acontecendo no Brasil.

Primeiro, países que adotam política industrial têm como objetivo fomentar o desenvolvimento de novos setores e criar vantagens comparativas. Se vamos incentivar setores em que já somos competitivos, não precisamos de política industrial. Acontece que mais da metade dos empréstimos do BNDES direcionam-se para os setores de baixa e média-baixa tecnologia, setores nos quais já somos competitivos. Dados do Ipea mostram que, em 2007, 60% (R$ 15,2 bilhões) dos empréstimos do BNDES para a indústria foram para setores de baixa e média-baixa tecnologia. Esse percentual aumentou em relação a 2002, que era de 46,5%. Em 2008, dos 10 maiores empréstimos do BNDES para indústria, oito deles foram para frigoríficos, agroindústria e usinas de álcool.

Segundo, além de incentivar prioritariamente setores em que já somos competitivos, o BNDES tem atuado de forma agressiva na concentração de vários setores da economia, apoiando processo de fusões e aquisições. O livro da economista do MIT Alice Amsden (The Rise of The Rest, 2001) mostra, na página 200, que o Brasil era o único país entre os emergentes industrializados que no final dos anos 80 não possuía um único grupo privado nacional na indústria, entre os 50 maiores grupos privados desses países. Nossos grandes grupos privados estavam todos no setor financeiro e no ramo de construção. Segundo essa análise, o Brasil era prejudicado porque, ao contrário de países como a Coreia do Sul, as empresas brasileiras não tinham porte para diversificar e transferir tecnologias entre empresas em setores diferentes, mas pertencentes ao mesmo grupo empresarial. Mas, mesmo no caso da Coreia do Sul, o incentivo à formação dos grandes grupos privados industriais estava ligado à exigência de diversificação para setores industriais não tradicionais. No caso do Brasil, tem-se a impressão que estamos criando apenas frigoríficos e usinas de cana maiores, como se o objetivo final fosse apenas ser grande.

Terceiro, a literatura de política industrial mostra que, para minimizar o risco de esse tipo de política enriquecer uns poucos a custo de muitos, é recomendável ter objetivos claros e um mix adequado de incentivos e mecanismos de punição (a cenoura e o porrete) – ver Alice Amsden (Asia The Next Giant, 1989). Outros autores, como o professor de Harvard Dani Rodrik, preferem destacar que o governo deve saber a hora de sair, quando as atividades (novas) incentivadas não mostrarem os resultados esperados. Em todos os documentos da política industrial brasileira, não se sabe quais os critérios que poderiam levar à descontinuidade dos incentivos: queremos premiar o espírito empreendedor sem o ônus da contrapartida. Alguns poderiam argumentar que existem metas na Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), mas essas metas não sinalizam quando um grupo empresarial perderia os incentivos concedidos pelo Estado. Estamos repetindo erros do passado.

Por último, os países que adotaram políticas industriais, como Coreia do Sul, Japão, Taiwan etc. contavam no setor público com uma equipe de elite que se relacionava com o setor privado e não se deixava capturar pelas empresas incentivadas, um processo denominado pelo sociólogo Peter Evans de “autonomia e parceria”. Acontece que, atualmente, os ministérios setoriais estão lotados de jovens brilhantes mas muito novos, que nunca colocaram o pé em uma fábrica. Autônomos, mas sem experiência para serem “parceiros”. O maior dos absurdos foi a criação de um agência de desenvolvimento industrial (ABDI) fora do governo para coordenar a política industrial do próprio governo. Como de fato não o faz, a ABDI se transformou em mais um órgão de estudos.

Depois de refletir sobre todos os pontos acima, notei que a política industrial é, de fato, avaliada nos bares de Brasília. Se você conhecer técnicos do BNDES ou dos ministérios, entre um copo de cerveja e outro vai descobrir que a ABDI foi proposta para ser um órgão de governo ligado à Casa Civil, que não existe um único documento oficial explicando a estratégia do BNDES de formação de grandes grupos privados em setores “tradicionais”, que o programa de mais R$ 10 bilhões de recuperação da indústria naval no Brasil é fortemente questionado por técnicos e mesmo por alguns diretores do BNDES; e que ninguém sabe, de fato, como a política industrial é avaliada. Infelizmente, por não termos como acompanhar a política industrial, o seu sucesso depende da sapiência de alguns técnicos bem intencionados. Por que o governo não aproveita o clamor atual por maior transparência e começa a divulgar de forma mais clara a sua real política industrial?

Mansueto Almeida é economista e Técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea.

Bom livro sobre a Índia..

Segue abaixo uma resenha do livro “In Spite of Gods: The Rise of Modern India” de 2008. Trata-se de um livro publicado no ano passado escrito pelo correspondente do jornal Financial Times na Índia. Para aqueles que querem conhecer melhor a Índia, recomendo começar com a leitura desse livro.

In Spite of The Gods – The Rise of Modern India

Autor: Edward Luce
Editora: Anchor Books, 2008
383 páginas
US$ 10,85

Spite of Gods cópiaPor que os brasileiros precisam conhecer a Índia? Por pelo menos três motivos. Primeiro, Brasil, Índia, China e Rússia formam os países do chamado BRIC, que são países emergentes com grande capacidade de crescimento devido ao seu vasto mercado consumidor interno. Segundo, o Brasil como a Índia tem uma economia altamente diversificada com ainda um forte dualismo: atividades modernas convivendo com métodos artesanais de produção. Terceiro,  a Índia como o Brasil tem adotado várias reformas e, no caso da Índia, entender o contexto dessas reformas é interessante por se tratar da maior democracia do mundo em um país com um sistema federativo como o brasileiro.

Uma agradável leitura para quem quer entender melhor a economia Indiana é sem dúvida o livro In spite of the Gods: The Rise of Modern India (Apesar dos Deuses: o Surgimento da Índia Moderna) do jornalista Edward Luce.  O autor tem uma grande familiaridade com temas econômicos já que foi assessor de comunicação do então secretário do Tesouro do governo Clinton, Larry Summers, e correspondente do jornal Financial Times em New Delhi de 2001 a 2006.  Logo no primeiro capítulo do livro Luce explica as fortes contradições da economia Indiana, onde o setor ultra-moderno de software convive com um setor de manufatura constituídos de pequenas empresas e com um ainda grande setor agrícola formado em sua maioria por pequenas propriedades (o tamanho médio de uma propriedade rural na índia é inferior a 2 hectares). Um dado que vai surpreender o leitor é o tamanho da informalidade na índia.

De uma força de trabalho de quase 500 milhões de trabalhadores, apenas 35 milhões são trabalhadores registrados, sendo que desse total 21 milhões são funcionários públicos e dos 14 milhões de trabalhadores registrados no setor privado, o setor industrial emprega apenas 7 milhões e o moderno setor de software apenas 1 milhão de trabalhadores. Ou seja, a informalidade é superior a 90% da força de trabalho; um dado muito pior do que o Brasil, já que nossa informalidade fica por volta de 45% da nossa força de trabalho (trabalhadores sem carteira assinada).

Mas o que explica essa elevada informalidade na Índia? O autor mostra que a razão parece estar na duríssima legislação trabalhista. Pela descrição feita no livro, Luce mostra que é quase impossível demitir um trabalhador na Índia. A demissão é um processo que leva anos e, em muitos casos, como no setor público, simplesmente não se permite que trabalhadores sejam demitidos.
Um caso interessante na Índia é a forte presença do estado em todos os aspectos da vida do cidadão e o uso político do setor público na geração de emprego. Embora alguns dos funcionários públicos sejam selecionados por concurso público, quase metade dos funcionários públicos ainda são selecionados por um sistema de quotas para as castas mais baixas. O crescimento do emprego público para as castas mais baixa é, inclusive, uma das propostas mais populares nos debates eleitorais segundo o autor. A remuneração dos funcionários públicos, embora seja muito superior à média do setor privado, é muito inferior aos salários do setor moderno de tecnologia de informação.

Um fato interessante em relação à Índia no seu processo de crescimento, ao contrário dos demais países em desenvolvimento, em especial a China, é que o setor de serviços no País cresceu antes mesmo do crescimento do setor industrial. Ao que parece esse processo decorreu de restrições impostas ao crescimento das firmas industriais, o que limitou o processo de migração da agricultura para indústria. Isso explica, em parte, a baixa taxa de urbanização do País: cerca de 75% da população ainda mora nas vilas do setor rural. O autor mostra que um das explicações para a baixa taxa de urbanização decorreu do planejamento estatal influenciado pelo líder Mahatma Gandhi que foi um dos grandes defensores da fixação dos trabalhadores nas vilas.

Um dos pontos fortes do livro é a análise da história política da Índia e a formação dos partidos políticos com seus vínculos com as castas e religiões. O Partido do Congresso é o partido do famoso líder indiano Jawaharlal Nehru, que foi o primeiro ministro da Índia quando a índia conseguiu sua independência da Inglaterra, em 1947, e que governou o país por quase 20 anos até 1964. Nehru teve como sucessor sua filha Indira Gandhi, que por sua vez teve como sucessor seu filho Rajiv Gandhi que foi assassinado em 1991
O livro mostra a conturbada questão da violência ligada à radicais religiosos como também o problema dos grupos organizados (máfia) e a entrada de pessoas com problemas na justiça na política. Em relação aos radicais ligados a grupos religiosos, o livro descreve em detalhes a organização partidária dos grupos nacionalista Hindu como também a famosa e sangrenta batalha no estado de Gujarat entre Hindus e Mulçumanos em 2002, que deixou mais de 200 mil pessoas sem casas depois que suas moradias foram incendiadas e várias pessoas mortas ao olhar complacente das autoridades locais.

A questão do crescente número de candidatos a cargos eletivos com problemas na justiça é algo que não e totalmente novo para nós brasileiros. Esse problema na Índia chegou a uma escala tal que, desde 2003, segundo descreve Luce em nota de rodapé na pp. 348, a Suprema Corte Indiana tornou obrigatória a publiquação dos antecedentes criminais dos candidatos a cargos eletivos.

Apesar da forte queda na pobreza desde o final dos anos 80, quando a Índia abraçou uma série de reformas e se abriu para o comércio internacional, o país ainda tem mais de 300 milhões de pessoas vivendo na pobreza e uma elevada taxa de analfabetismo. A questão de combate à pobreza, por sinal, parece ser um dos pontos no qual o governo ainda tem muito a melhorar. Nos programas de combate à pobreza ainda predomina o uso de vouchers para a compra de alimentos em armazéns cadastrados pelo governo, um sistema altamente ineficiente já que os comerciantes trocam os vouchers apenas por produtos de qualidade inferior.

No caso da educação, apesar do ainda elevado analfabetismo, a Índia conseguiu estabelecer um grupo de universidades de elite na área de tecnologia. De acordo com a última edição da pesquisa anual QS Top Universities, a Índia tem cinco universidades entre as 100 melhores do mundo na área de tecnologia: os Institutos de Tecnologia de Bombay, de Delhi, de Kampur, de Madras e de Kharagpur. Na área de tecnologia, o Brasil não tem nenhuma universidade entre as 100 melhores do mundo por esse ranking e a Índia forma mais de 120 mil engenheiros por ano, quase quatro vezes mais que o Brasil.

O livro no seu capítulo final mostra os grandes desafios da Índia para continuar o seu impressionante processo de crescimento. Entre esses desafios destacam-se, por exemplo, aumentar a taxa de urbanização, melhorar o planejamento urbano das cidades, reduzir as restrições impostas pelo governo na venda e aluguel de terras, reformar a legislação trabalhista, controlar a crescente poluição ambiental e melhorar os investimentos em infra-estrutura, em especial, a oferta de energia e a modernização das ferrovias e rodovias. A Índia tem um problema sério de oferta de energia e muitas firmas são obrigadas a utilizar geradores à óleo que acabam agravando o problema de poluição nos centros urbanos.

Os desafios são grandes na maior democracia do mundo, mas para um país que desde 1988 o PIB cresce a uma taxa media de 6,3% ao ano; é possível que o consenso político pró-reformas seja retomado com o novo governo. Vale lembrar, por sinal, que a Índia ainda não entrou na rota mundial da produção dos bens de manufaturados intensivo em trabalho (calçados, confecção, artigos de viagens, brinquedos, etc.) e que menos de 2% da produção de frutas e verduras no país é industrializado, ante 78% no Brasil. Se a Índia modernizar sua agricultura e também reformular as restrições legais e trabalhistas que ainda impedem o crescimento de bens manufaturados intensivos em trabalho voltados para exportação, o Brasil terá que se preocupar com o surgimento de uma nova “China” no comércio mundial. O livro In spite of the Gods de Edward Luce é sem dúvida uma rápida, interessante e provocativa análise histórica e jornalística da Índia.

Mansueto F. de Almeida Junior (IPEA)

Resenha do livro: The Bottom Billion

The Bottom Billion: why the poorest countries are failing and what can be done about it.

Autor: Paul Collier
Oxford University Press
Ano: 2007

Bottom_Billion_book_coverUm dos livros mais lidos pela comunidade acadêmica e por políticos do mundo todo é o livro do economista e professor de Oxford Paul Collier, que também foi diretor de pesquisa do Banco Mundial; convidado por Joseph Stiglitz. Neste interessante livro, Paul Collier entra no debate sobre a eficácia da ajuda internacional na redução da pobreza e na promoção do desenvolvimento de países pobres. Esse debate tem sido bastante intenso desde a publicação de dois livros sobre o assunto: um de autoria do economista Jeffrey Sachs (O fim da pobreza, companhia das Letras) defendendo maiores transferências de países ricos para combater a pobreza e outro de autoria do economista William Easterly (“The White Man’s Burden”) no qual esse autor condena o crescimento das transferências de renda, que terminam não melhorando a situação dos pobres nos países que recebem ajuda internacional para promoção do desenvolvimento. Paul Collier mostra no seu livro que nem Sachs nem Easterly estão corretos, mas também não estão totalmente errados.

O foco da pesquisa de Collier é no que ele chama de “o bilhão de baixo” o grupo de pessoas que vivem em sociedades com extrema pobreza, sendo que 70% dessas pessoas estão no continente africano em países como Chade, Congo, República Centro-Africana, Serra Leoa, Uganda, Burkina Faso, Nigéria, etc. que apresentam algumas ou todas das quatro armadilhas ao desenvolvimento: (1) conflitos armados, (2) a maldição dos recursos naturais, (3) países sem acesso ao litoral e cercado por países pobres; e (4) governos ineficientes.

Em relação aos conflitos armados, o autor mostra que países de baixa renda, sem crescimento econômico e com riquezas naturais têm maior probabilidade de ter uma guerra civil. Uma vez que esses países passam por guerras civis, aumenta muito a probabilidade de novas guerras. O autor mostra, por exemplo, que metade das guerras civis são guerras recorrentes; ou seja, uma vez que há um conflito armado em um país, esse país tem 50% de chance de ter uma nova guerra civil ao longo dos próximos 10 anos. A solução nesse caso passa, segundo o autor, pela formação de uma força de paz internacional nesses países e o desmonte da força armada doméstica.

No caso da maldição dos recursos naturais, um velho tópico nos artigos de economia, o autor mostra que a descoberta de recursos naturais em países “pobres” leva ao que se chama de doença holandesa; com apreciação da moeda local que prejudica as demais exportações além de aumentar a rivalidade entre grupos políticos para se apropriar da riqueza do país. Isso ocorreria tanto em ditaduras como também em governos “democráticos”, já que nada impediria a organização de grupos rivais em eleições para se apropriar da riqueza do país e comprar apoio político. A única forma de evitar esse problema é com o estabelecimento de boas instituições e mecanismo de transparência e controle do uso de recursos púbicos, o que nos levaria a solução da quarta armadilha (governos ineficientes) identificada no livro.  

Collier dá uma série de sugestões para melhorar as instituições que vai desde um conjunto de boas práticas de governança, que deveriam ser estabelecidas por organismos internacionais como a ONU e a OCDE, até a formação de uma comissão tripartite composta por governo, organismos internacionais e grupos civis locais para fiscalizar a aplicação dos recursos públicos para educação, saúde, e obras de infra-estrutura.

 Em relação à terceira armadilha, representada pela distância dos países do litoral, a única forma de solucionar isso é contando com a ajuda de organismos internacionais no financiamento de projetos de infra-estrutura regionais que aumente o acesso desses países isolados ao resto mundo. Para isso, o autor lembra que talvez seja necessário que organismos internacionais passem a financiar projetos regionais com impacto em mais de um país.

Dada a discussão das armadilhas acima, o autor defende a tese que não há solução de mercado para o problema do desenvolvimento desses países; pois mesmo os salários baixos nesses países não são mais suficientes para que esses países participem, naturalmente, da globalização; já que países como Índia, China e Vietnam ainda dispõe de muita mão-de-obra barata e condições muito melhores para atração de investimentos. E maiores investimento em educação, sem oportunidade de emprego local, vai apenas aumentar a migração.

Dado que não há solução de mercado para esses países, o que pode ser feito?
Collier acredita em um conjunto de medidas para solucionar os problemas levantados acima. Esses países ainda precisam da ajuda internacional na construção da infra-estrutura; muitos deles ainda precisam de uma espécie de roteiro de boas práticas que os governos democráticos nesses países possam seguir para fazer reformas domésticas, acordos comerciais preferenciais de acesso ao mercado dos produtos desses países aos mercados de países desenvolvidos seria outra medida, e a presença de uma força de paz internacional em países recém saídos de guerras civis.

 Muitos criticaram essa última proposta do autor como sendo uma espécie de novo colonialismo, mas ele adverte que essa intervenção só se justificaria em casos onde estejam correndo extrema violência e para apoiar grupos democráticos locais. Também é discutível a proposta de investimentos maciços (“big push”) como forma de promover o desenvolvimento desses países pobres. De qualquer forma, independente de que como você se posicione nesse debate do combate à pobreza no mundo, esse é um livro que vai levar você a pensar e reconhecer que não há soluções simples ou de mercado para muitos dos países africanos e que a chave para o crescimento deve combinar programas de combate a pobreza, com a construção de infra-estrutura e reforma do estado. Sem dúvida uma agenda difícil, mas não impossível na opinião de Collier.

Resenha feita por Mansueto Almeida para a Revista Desafios (IPEA), No 49, ano 6, Abril de 2009