No mesmo dia em que publiquei o meu artigo no jornal O Estado de São Paulo (ver post anterior) recebi um e-mail interessante de um dos fundadores da Embraer e por vários anos presidente da Empresa, o Dr. Ozires Silva, com alguns esclarecimentos em relação ao teor do meu artigo.
Devo confessar que gostei muito do teor do e-mail enviado e escrevi para ele deixando mais clara minha posição em relação à Embraer. Primeiro, talvez tenha passado a impressão errada que estava chamando a Embraer de uma empresa ineficiente no seu período de empresa de economia mista, o que não foi minha intenção. Na verdade, a Embraer deve muito do seu sucesso atual ao esforço do período em que era uma empresa de economia mista. Tenho grande admiração por pessoas como o Dr. Ozires Silva e seus colegas pelo esforço que tiveram em construir o ITA, CTA e Embraer contra a crença de todos da época e de uma ousadia impressionante que hoje nos falta.
Adicionalmente, é normal que empresas inovadoras tenham alguns anos de prejuízo como é o caso de várias empresas que hoje são admiradas como, por exemplo, a Toyota, que foi salva da bancarrota pelo governo Japonês por pelo menos duas vezes. Deveria no meu artigo ter utilizado a palavra “alguns anos de prejuízo” e não “décadas”.
Segundo, o complexo ITA, CTA e Embraer é para mim um dos melhores exemplos de política industrial planejada e que seguiu os passos corretos: formação de capital humano, incentivo à pesquisa, e formação de uma empresa para utilizar o capital humano gerado. Tenho dúvidas, no entanto, se hoje o modelo seria replicável na mesma escala, devido ao elevado custo (algo comum também em várias experiências de política industrial) e dados os recursos escasso, imagino que hoje os desafios sejam outros: mais inovação (no sentido amplo que envolve absorver tecnologias que já existem) e priorizar a educação.
Pedi a permissão ao Dr. Ozires Silva para publicar neste blog o seu e-mail, pois acho que esse tipo de debate é muito bom. No mais, me alegra ver uma pessoa como o Dr. Ozires Silva ainda participando ativamente do debate dos rumos do Brasil.
Carta do Dr. Ozires Silva, ex-presidente da Embraer, ao Blog
Caro Dr. Mansueto,
Li com atenção seu artigo de hoje, 01.01.2012, no ESTADÃO, sob o título OS RISCOS DA POLÍTICA INDUSTRIAL, com o qual concordo em grande medida. E tenho razões para isso, pois participei intensamente do processo de criação da EMBRAER, em meados da década dos 1960, quando tive de enfrentar muito pouco crédito quanto a idéia de criar uma empresa internacional, competitiva, participando de fornecimentos de aviões modernos para a operação nos cinco continentes, a partir de produtos de tecnologia, marcas e propriedade industrial brasileiras.
Não conseguimos, nos idos dos 1964/66, convencer empresários privados a investirem num projeto de avião brasileiro, realizado pelo então CTA – Centro Técnico de Aeronáutica, um centro de pesquisas e de desenvolvimento criado pelo Ministério da Aeronáutica, no campus aonde já existia o ITA. Em face disso, lutando para que o projeto científico pudesse se transformar num projeto industrio-comercial falhasse, tivemos de optar e propor, embora muitas dificuldades, dar partida como uma Sociedade de Economia Mista, dentro do Decreto-Lei Nr 200/66, que regulamentou a criação de empresas, controladas pelo Estado, mas com participação privada que, no caso da EMBRAER, foi conseguida via incentivos fiscais. Uma espécie de PPP do passado.
Desde o início, demos àquela empresa o sentido de uma administração privada, diferentemente de todas as outras empresas estatais que procuraram mais ser Governo do que Empresa. Nosso Conselho de Administração era majoritariamente composto de representantes do setor privado, e contou com membros indicados pela FIESP e pela CNI. O controle majoritário era do Governo, mas as decisões do Conselho, daquela forma, passavam pelo setor privado.
Assim, Dr Mansueto, fico chocado e não posso aceitar, sua colocação no artigo, possivelmente sem ter analisado os balanços anuais da EMBRAER – durante o seu período como Sociedade de Economia Mista – colocando superficialmente “uma empresa estatal que, por décadas se deu ao luxo de não ser lucrativa por contar com apoio público”. É certo que a empresa teve anos difíceis e mostrou alguns exercícios fiscais nos quais registrou prejuízos, em grande parte pela pouca crença dos brasileiros que se justificava fabricar aviões no Brasil. E também pelas restrições gerenciais que o Governo, como acionista tradicionalmente coloca para com o desempenho de suas empresas controladas. Aliás, foram essas restrições que me moveu, em 1991, também lutar para que a empresa fosse privatizada, o que encontrou resistências intensas do público interessado (Sindicatos dos Trabalhadores, Políticos locais, FAB e de muitas instituições governamentais). Também tive de treinar meus ouvidos para tentar responder urbanamente, às muitas observações ácidas (como Presidente da EMBRAER por 21 anos), que não se justificava colocar recursos públicos num tal projeto.
Volto a dizer que concordo com seu artigo, apenas sugerindo que veja os exemplos dos países emergentes que apresentam sucesso, graças à projetos governamentais, com intensa participação dos Governos. Parece-me que, no Brasil, com a baixa disponibilidade de capitais de risco empresarial, temos de pensar no que coloca no seu artigo. Mas, não desejo me alongar mais neste tema que, tenho a certeza o Doutor pode argumentar muito melhor do que eu.
Deste modo, aqui fica meu protesto, apenas amainados porque o senhor não é o único que faz esse tipo de colocação que não faz juz aos pioneiros da EMBRAER, os quais, desde o início trabalharam com afinco para construir uma entidade internacional rentável, conseguindo conquistar, durante o período como estatal, exportações de aviões para mais de 45 países. Graças àquele projeto de caráter internacional desde o início e suas primeiras estratégias, preocupadas com o mercado, com vendas e marketing, foi que tivemos fôlego para chegar à época da políticas de privatização do Governo, e, a partir de 1994, dar um novo impulso privado ao empreendimento.
Agradeço sua atenção, como agradeço os elogios à EMBRAER – merecidos, diria – e lhe desejo um grande 2012, cheio de realizações e sucessos
Ozires Silva
Reitor UNIMONTE