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Arquivo da categoria ‘BNDES’

Na semana passada dei uma entrevista para o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), uma organização da sociedade civil fundada em 1981 por, entre outros, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Como eles próprio colocam na sua página na internet, “o Ibase tem como objetivo a radicalização da democracia e a afirmação de uma cidadania ativa.”

A minha entrevista foi sobre o papel do BNDES. Quem tiver curiosidade de ler o que falei sobre o assunto pode clicar aqui e ler diretamente na página da Plataforma BNDES do Ibase.

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No final de 2011, o Jornal o Estado de São Paulo convidou 5 economistas estrangeiros e 8 economistas brasileiros para escreverem na primeira edição do ano do jornal. Os economistas estrangeiros convidados foram:  (a) Mohamed El-Erian; (b) Barry Eichengreen; (c) Jim O’Neill, (d) Michael Pettis, (e) Thomas J. Trebat.

Os economistas brasileiros convidados foram: (a) Guido Mantega – Min da Fazenda; (b) João Carlos Ferraz – Diretor e vice-presidente do BNDES, (c) Ilan Goldfajn – economista chefe do Itaú/Unibanco, (d) Octavio de Barros – economista-chefe do Bradesco, (e) José Roberto Mendonça de Barros – MBA consultoria, (f) Mansueto Almeida – IPEA, (g) Affonso Celso Pastore – A.C Pastore e Associados, (h) Samuel Pessoa – IBRE-FGV e Tendências consultoria.

O tema que me foi sugerido foi falar sobre a politica industrial. Segue abaixo o meu artigo e sobre o mesmo tema, sugiro a leitura dos textos do João Carlos Ferraz e do economista José Roberto Mendonça de Barros. Quem tiver uma base mas sólida de economia vale a pena ler o artigo do Samuel Pessoa. De qualquer forma, envio anexo todos os artigos (clique aqui).

Estado de São Paulo – 01 de janeiro de 2012

Os riscos da política industrial

Mansueto Almeida é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)

Desde 2003, o governo brasileiro voltou a fazer uso de políticas com o objetivo de ajudar o crescimento de empresas individuais e setores econômicos. Essas políticas, denominadas de política industrial, partem do pressuposto de que algumas empresas e setores econômicos devem ser apoiados pelo Estado devido aos amplos benefícios que ocasionariam para outras empresas e setores da economia.

O problema é que, com raras exceções, o termo “política industrial” é utilizado para justificar políticas de incentivos que não têm relação alguma com incentivos à inovação ou aumento de produtividade. Utiliza-se esse termo para, por exemplo, justificar políticas de elevado ganho individual para as empresas incentivadas, mas de duvidoso retorno social, e poucas vezes se questiona o uso excessivo de recursos públicos para determinados setores econômicos ou empresas, que não precisariam de tal apoio para serem competitivos. É interessante olhar para alguns casos de sucesso de política industrial no Brasil para que se entendam os prós e contras dessas políticas.

Um primeiro exemplo considerado de sucesso de política industrial no Brasil é o caso da Embraer. O Brasil conseguiu ter uma empresa competitiva no ramo de aviação, um setor que requer elevado esforço de pesquisa e inovação. No entanto, o sucesso da Embraer foi resultado de um esforço de política pública dificilmente replicável. O Estado criou uma universidade de elite (ITA), recrutou professores das melhores universidades do mundo para lecionar no Brasil com salários compatíveis com o de seus países de origem, montou um centro de pesquisa (CTA) financiado pelo setor público e depois criou uma empresa estatal, a Embraer, que por décadas se deu ao luxo de não ser lucrativa por contar com o apoio do setor público. A Embraer é hoje um caso de sucesso, mas um sucesso que resultou de mais de 50 anos de forte apoio do setor público a um custo elevado. Sem demérito da experiência da Embraer, talvez o mais importante para o Brasil hoje seja aumentar a produtividade do que já existe em vez de criar, por exemplo, uma “NASA” nacional ou uma fábrica de montagem de iPads com recursos públicos.

Um segundo exemplo que guarda semelhanças e diferenças com o modelo Embraer é o caso da Petrobras. A semelhança vem do forte apoio do setor público que já passa de meio século, junto com elevados gastos em pesquisa e treinamento de pessoal. A diferença em relação ao modelo Embraer é que, no caso da Petrobras, o esforço de se criar uma empresa internacionalmente competitiva estava ligado a uma vantagem comparativa que se tornou clara a partir da década de 70: as nossas reservas de petróleo offshore. Outra diferença em relação à Embraer é que, mesmo depois de mais de 50 anos de forte apoio do Estado, a Petrobras ainda desfruta de um relacionamento “especial” com o governo, seja pelo apoio maciço de crédito dos bancos públicos, que juntos têm créditos a receber de mais de R$ 50 bilhões da Petrobras, e mudanças legais que, em 2010, criaram novamente uma reserva de mercado para esta empresa nos novos campos do pré-sal a serem licitados. Neste caso, utilizam-se recursos públicos para fomentar uma empresa que não precisaria de novos incentivos e essa atitude mostra um dos maiores riscos da política industrial, o de transformar o apoio do Estado, que deve ser temporário, em incentivos permanentes.

Um terceiro exemplo de sucesso de política “industrial” no Brasil, e talvez o que melhor consiga captar os benefícios de uma política setorial é o caso da Embrapa. Ao contrário dos casos acima, o modelo Embrapa teve como objetivo criar uma instituição de pesquisa de elite, recrutando desde o seu início os melhores estudantes dos cursos de agronomia para compor o seu quadro e investindo na formação desses pesquisadores nas melhores universidades do mundo. O produto da Embrapa é inovação, como as técnicas de correção de solo e o desenvolvimento de sementes de soja adaptadas ao clima do cerrado, que puderam ser apropriadas não por uma empresa, mas por diversos produtores. O modelo de inovação da Embrapa tem desde a sua concepção a característica de bem público. A inovação é voltada para um setor e não para empresas individuais.

A política industrial atual deveria ser repensada à luz dos ensinamentos dos casos acima. De todos eles, o que parecer ser o modelo de maior sucesso para incentivar empresas privadas parece ser o da Embrapa, cuja inovação incentivada pelo setor público assume características de bem público. Os problemas atuais com a política industrial do Brasil são pelo menos três. Primeiro, essa política é, na prática, excessivamente voltada ao fomento de empresas privadas individuais em setores nos quais já desfrutamos de vantagens comparativas. Segundo, muito do que se chama de política industrial no Brasil é a concessão de crédito subsidiado para empresas já estabelecidas, quando o foco principal da política deveria ser o apoio à inovação de qualquer empresa em qualquer setor econômico. No Brasil, enquanto aumentamos a dívida pública para fomentar operações de crédito e a participação do BNDES em operações de fusão e aquisição que poderiam ser financiadas com recursos privados, há anos sobram recursos dos Fundos Setoriais para financiar o esforço de inovação.

Por fim, há talvez no Brasil uma preocupação excessiva em criar grandes empresas quando a grande maioria das empresas brasileiras ainda padece de um problema muito mais simples: gestão inadequada e o uso de tecnologias antigas. Mais do que incentivar o surgimento de uma nova Embraer ou concentrar o apoio do setor público a uma empresa como a Petrobras, a política industrial moderna deveria estar voltada para a disseminação de tecnologias já existentes, incentivos à inovação, maiores investimento em educação básica e uma política de oferta de bens públicos para resolver problemas de competitividade setorial que muitas vezes decorrem do baixo investimento do Estado, apesar da nossa já elevada carga tributária.


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O livro abaixo será lançado na terceira semana de novembro no Rio de Janeiro. Ele reúne vários artigos interessantes sobre a agenda de competitividade do Brasil. Os autores são na sua maioria professores da FGV-RJ ou pesquisadores do IBRE-FGV. Neste livro, escrevo  um capítulo sobre o financiamento do desenvolvimento com o foco na atuação do BNDES.

Livro: A agenda de competitividade do Brasil
Organizador: Regis Bonelli
ISBN: 978-85-225-0944-7
Ano: 2011, 448 páginas.
FGV-Editora

Será que o Brasil tem uma agenda de competitividade? Essa pergunta pode ter resposta em vários níveis. Em primeiro lugar, e de modo algo evidente, todos os países têm, em alguma medida, ações visando apoiar a atividade econômica dentro de suas fronteiras. Em segundo, a experiência brasileira no passado é cheia de exemplos, alguns bem-sucedidos, outros nem tanto, de políticas para aumentar a competitividade como as conhecidas políticas industrial e de comércio exterior seguidas quase que sem interrupção no Brasil desde a Segunda Guerra Mundial até os anos 1980. Em terceiro, e mais importante, várias dessas linhas de política foram abandonadas, ou desenfatizadas, ao longo do tempo. E, por fim, diversos analistas percebem que o Brasil tem uma agenda de competitividade em construção. E é dela que nos ocuparemos neste volume, sem pretensão de cobrir todo o espectro de ações, linhas de política e propostas.

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Já havia falado antes sobre esse assunto aqui, mas resolvi retomá-lo. Minha tese é simples. O Governo utilizou parte dos recursos emprestados ao BNDES para transformar dívida em receita primária. Vamos ao argumento.

Um técnico do BNDES, extremamente cuidadoso quando se trata de números, me garantiu que o BNDES poderia emprestar um pouco mais de R$ 90 bilhões por ano sem ajuda alguma do Tesouro Nacional. OK, vamos ser mais conservadores do que esse meu colega do BNDES e trabalhar que a autonomia do BNDES sem ajuda do Tesouro Nacional seja de R$ 80 bilhões ou R$ 85 bilhões. Assim, como se pode ver nas primeiras colunas das tabelas abaixo, entre 2008 e 2010, o BNDES poderia ter emprestado, sem ajuda do Tesouro Nacional, entre R$ 240 bilhões e R$ 255 bilhões.

No entanto, nesse período houve vários empréstimos do Tesouro Nacional para o BNDES. Pela tabela do Banco Central da Dívida Liquida do Setor Público é possível ver o dado do saldo dos empréstimos do Tesouro Nacional para o BNDES em 2008 e, para 2009 e 2010, vamos trabalhar com os repasses oficiais aprovados: R$ 100 bilhões e R$ 80 bilhões respectivamente. Ou seja, de 2008 a 2010, o Tesouro Nacional repassou ao BNDES R$ 207 bilhões.

O que foi feito com esses empréstimos? Como mostram as tabelas abaixo, dependendo da estimativa que se faz da capacidade de empréstimos anuais do BNDES sem ajuda do Tesouro, se R$ 80 bilhões ou R$ 85 bilhões, chega-se a conclusão simples que o BNDES emprestou muito menos (R$ 395,6 bilhões) em 2008, 2009 e 2010 do que o volume disponibilizado para o banco emprestar neste período que foi R$ 447 bilhões ou R$ 462 bilhões. Sobrou recursos!! R$ 51,5 bilhões ou R$ 66,5 bilhões.

Tabela 1 – Sobra de Recursos do BNDES R$ milhões – (autonomia do BNDES = R$ 85 bilhões)

Tabela 2 – Sobra de Recursos do BNDES R$ milhões (autonomia do BNDES = R$ 80 bilhões)

Pergunta: o que foi feito com essa sobra de recursos? Ficou aplicada em valores mobiliários no mercado financeiro: títulos de renda fixa e ações? Foi transformado em pagamento de dividendos? Se essa sobra de caixa estiver sendo utilizada para o pagamento de dividendos, isso é um evidente absurdo já que o banco, que precisa de empréstimos do Tesouro, estaria ao mesmo tempo aumentando o pagamento de dividendos ao Tesouro e, assim transformando uma divida em receita primária.

Dividendos recolhidos pelo BNDES à União – R$ milhões  (2001-2010)

O correto seria que, dado que o banco precisa de dinheiro, retivesse os dividendos devidos ao Tesouro e se capitalizasse. Ao invés disso, ao mesmo tempo em que o Tesouro faz os repasses, o BNDES paga mais dividendos ao Tesouro. Na prática, se usa parte dos empréstimos do Tesouro ao BNDES para criar receita primária.

Por que estou retomando este tema? Porque acho que se no próximo ano faltar receita para fechar o primário, esse tipo de artifício será, mais uma vez, utilizado.  A propósito, o culpado por essa prática não é o BNDES, mas o controlador do BNDES.

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