Com todo o respeito que tenho pela liturgia do cargo, o pronunciamento da Presidenta da República hoje na TV em rede nacional teve um tom de populismo que há muito tempo não escutava. Para mim foi de mais a afirmação que “…os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos.…o setor financeiro, portanto, não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros“.
Já falei por diversas vezes que não gosto da política de grito para baixar os juros porque (podem me chamar de legalista) acho que ações desse tipo deveriam partir dos órgãos responsáveis pela regulação e fiscalização do sistema bancário, i.e. o Banco Central do Brasil (com ou sem a ajuda do CADE).
Hoje tem um artigo excelente dos professores da PUC-RJ, João Manoel Pinho de Mello e Vinícius Carrasco no Estado de São Paulo no qual concordo 100% com os argumentos do dois (clique aqui) de que “No caso de conluio, cabe às autoridades antitruste comprová-lo e impor as sanções cabíveis. Da mesma maneira, portanto, mesmo que o diagnóstico seja de que os bancos brasileiros estão hoje cartelizados, usar bancos públicos para forçar a queda de preços é uma atitude equivocada….
“Os spreads podem ser altos porque os bancos estão em concorrência oligopolística, o que não significa que não estejam competindo. Significa tão somente que há poucos bancos. Nesse caso, a solução não é forçar preço para baixo na marra, mas impedir fusões entre bancos grandes e tomar medidas para diminuir o custo de entrada.”
Em tempo, não tinha nenhuma restrição que o setor público utilizasse a CEF para forçar maior concorrência no setor. É um banco 100% público e acho legítimo o governo, em uma conjuntura de restrição do crédito utilizar o seu banco para evitar uma forte contração do crédito. Mas não é isso que está acontecendo. O governo utiliza CEF e Banco do Brasil e ainda fica inflando o sentimento da população contra os bancos privados.
Na semana passada, em palestra-jantar que fui convidado em Brasília para deputados e senadores do PSDB, na terça-feira dia 24 de abril, falei o seguinte em resposta a uma pergunta formulada:
“Em relação à redução de taxa Selic e da questão do spread, o senador Tasso foi o relator de uma comissão da crise, lá atrás, no Senado Federal, e o presidente da comissão era o senador Francisco Dornelles (PP/RJ). Foi feito um documento que vale a pena resgatá-lo, em que se tenta explicar por que o spread bancário no Brasil é tão elevado. E há um conjunto de fatores: imposto elevado, crédito direcionado, compulsório muito elevado, ou seja, uma série de coisas.
Na questão de concentração bancária o que me assusta é que se realmente o setor bancário do Brasil era concentrado, significa que as instituições deste País não funcionaram. Significa que o Banco Central não funcionou ou o Cade não funcionou. Quando há mercado concentrado tenta-se desconcentrar aquele mercado com atuação das agências que são responsáveis pela concorrência, como é o caso do Cade ou o Banco Central.
Se de fato conseguirmos reduzir os juros no grito, significa que nossas instituições, que deveriam olhar concentração de mercado, no caso específico de bancos, não funcionaram. Isso me deixa muito assustado, porque pode passar a impressão de que se podem resolver os problemas do Brasil no grito, e assim não se resolve. Por exemplo, o PAC não está andando. Grande parte da execução do PAC é de financiamento habitacional. O financiamento que é dado é computado como gasto do PAC…..Não se resolvem os problemas do Brasil no grito, mas resolvem-se os problemas deste país com reformas institucionais.”
Se os problemas no Brasil podem ser resolvidos no grito, alguém pode me explicar então por que não conseguimos acelerar a execução do investimento público? Se tudo pode ser resolvido no grito, por que então o governo propôs a Lei nº 12462/11, que trata, entre outros assuntos, do denominado Regime Diferenciado de Contratações Públicas para as obras da copa e das olimpíadas?As questões de licitações mal elaboradas e os problemas de excesso de controle do TCU é tudo invenção dos Ministérios e das construtoras?
Por favor, me expliquem. Por que não resolvemos o nossos baixo investimento público à base do grito? e por que não forçamos as empreiteras a cobrar menos pelo seus serviços?



