Algumas pessoas haviam me perguntado o que eu esperava dos dados fiscais que foram divulgados ontem. Eu me interesso muito pouco sobre resultados mensais e me interesso muito mais pela tendência e consistência da política fiscal no médio prazo. Não tenho dúvidas que o Brasil faz um esforço fiscal considerável frente ao resto do mundo, mas esse nosso “esforço fiscal considerável” está longe de ser um retrato em branco e preto de um modelo consistente de equilíbrio fiscal de longo prazo.
Já falei diversas vezes e volto a repetir: o nosso modelo de gasto fiscal vigente só se sustenta com aumentos sucessivos de carga tributária. O resultado disso é muito simples. No curto-prazo, temos uma economia com dados macroeconômicos positivos (vamos deixar de lado, por enquanto, o problema da inflação) e, no longo-prazo, temos uma economia com vários sinais de debilidade – dependência elevada de poupança externa, elevada carga tributária e baixa produtividade, sistema educacional que investe mais no ensino superior do que na educação básica, baixa qualidade dos gastos em educação, ambiente de negócios não muito competitivo, baixo nível do investimento público, tributação do investimento produtivo, etc.
Depois dessa breve introdução, vamos ao que interessa: o resultado fiscal.
(1) Crescimento do Superávit Primário em R$ 16,7 bilhões: o que significa?
como já destaquei diversas vezes, o bom comportamento fiscal vem muito mais do lado da receita do que do lado da despesa. Nesses quatro primeiros meses do ano, o superávit primário cresceu R$ 16,7 bilhões em relação ao mesmo período do ano passado. No entanto, esse crescimento decorreu de um crescimento de R$ 36,5 bilhões da receita líquida total (crescimento nominal de 16%) maior que o crescimento de R$ 19,8 bilhões na despesa total (crescimento nominal de 9,7%).
Pode me chamar de pessimista, mas um crescimento nominal de 10% da despesa total em um momento no qual ocorreu um violenta desaceleração do investimento público, o governo congelou os concursos públicos e novas contratações, o salário mínimo teve correção real zero e há ainda um esforço de controle custeio, está longe de ser um resultado positivo. Vale lembrar que a partir do próximo ano temos um regra formal de “indexação” do salario mínimo e uma correção esperada próxima a 14% que terá um impacto fiscal brutal.
(2) Crescimento do Gastos com Pessoal e Benefícios Previdenciários.
vou confessar aqui uma coisa. Eu nunca consegui ler até o final esses relatórios do “Resultado do Tesouro Nacional”. Raramente minha leitura vai além da Tabela 1 da pp. 1 porque o resto me parece uma boa análise de elevador – descrição de quais itens subiram e quais desceram. O que mais me impressiona é que o Tesouro Nacional tem uma equipe muito bem preparada, jovens economistas com mestrado e doutorado que sabem olhar bem os números e que deveriam ter explicado já no mês passado a postergação do pagamento de sentenças judiciais.
Ao contrário do mês passado, houve um forte crescimento no gasto com pessoal e nos benefícios previdenciários decorrente do pagamento de sentenças judiciais. O relatório atual fala desse efeito, mas não se encontra uma única referência a isso no resultado divulgado no mês de março, que deixou vários analistas surpresos com o baixo crescimento da folha de pessoal e dos gastos de previdência. Na palestra que dei na sexta-feira da semana passada na ANBIMA, em São Paulo, já havia alertado sobre isso e mostrei a tabela que reproduzo abaixo que mostra que mais de R$ 5 bilhões de economia no primeiro trimestre deste ano simplesmente não existiu, foi mera postergação do pagamento de sentenças judiciais. Em 2009, essas sentenças foram pagas em janeiro. Em 2010, em março e agora apenas em abril.

Um governo que quer se comunicar melhor com o mercado deveria ter alertado sobre isso na divulgação do resultado em março. No entanto, o Secretário do Tesouro Nacional ficou caladinho e deixou que o mercado pensasse que a economia da despesa havia sido maior do que aquela que efetivamente ocorreu.
Nos primeiros quatro meses do ano, que agora é comparável com o ano passado já que as sentenças judiciais foram pagas, o que temos é que a despesa com pessoal cresceu 11,04% (R$ 5,9 bilhões) em relação ao 2010, enquanto, em 2010 em relação à 2009, essa despesa havia crescido em 7% (R$ R$ 3,6 bilhões). Em um ano sem contratação e com a suspensão de concursos públicos, a despesa com pessoal aumentou mais do que no ano passado. Onde está o resultado positivo?
No caso da previdência, nesses quatro primeiros meses do ano houve uma redução do crescimento do gasto dessa conta. De 2009 para 2010, os benefícios previdenciários haviam crescido 14,6% (R$ 10,06 bilhões), ante um crescimento de “apenas” 10% (R$ 7,9 bilhões) de 2010 para 2011. A conta da previdência continua crescendo a dois dígitos apesar do crescimento real “zero” do salario mínimo este ano. Quando me lembro disso, fico mais preocupado com 2012 e espero que até lá o Banco Central já tenha conseguido convencer ao Ministério da Fazenda que não há problema algum em ter economistas do mercado financeiro na sua diretoria.
(OBS: Para quem não sabe, até o momento, as tentativas (pelo menos quatro) de nomear economistas do mercado financeiro para a diretoria do Banco Central foram rejeitadas por alguém com poder de veto (leia-se Ministério da Fazenda ou Palácio do Planalto). Há duas diretorias vagas e seria bom para o Banco Central e para o próprio governo que houvesse alguém próximo ao mercado na atual diretoria – os cargos estão vagos).
(3) Investimento Público e Custeio (outras despesas de custeio)
Vou falar muito rápido sobre esse ponto. Apesar de ainda crescer a uma taxa de dois dígitos (10,4%), o crescimento das outras despesas de custeio (exclui FAT e LOAS) é menor do que no ano passado (23,4%) . Estou investigando isso com mais detalhe e vou pensar se disponibilizo ou não uma nota neste espaço. A forte desaceleração do gasto público este ano vem, como já era esperado, das despesas de investimento que cresceram em apenas 4,5%em termos nominais, um crescimento de apenas R$ 578 milhões.
Na verdade, graças a uma onda de ordens bancárias do final de 2010, o investimento ainda mostra crescimento nominal pequeno (o crescimento real já é negativo). É importante ter em mente os seguintes pontos quanto ao comportamento do investimento público. Primeiro, a forte desaceleração do investimento público é quase geral, mas impressiona a desaceleração do investimento dos seguintes ministérios: (a) Defesa Nacional; (b) Cidades; e (3) Integração Nacional. Esses três ministérios haviam sido responsáveis por 50% do crescimento do investimento no quatro primeiros meses do ano passado e, neste ano, esses três minitérios tiveram crescimento nominal negativo na execução do investimento. Um crescimento que no ano passado até abril havia sido de R$ 3 bilhões passou para um queda de R$ 1,08 bilhão na execução.
Segundo, parte dessa desaceleração do investimento como é o caso do Ministério da Defesa Nacional tem pouco impacto sobre a demanda agregada, já que esse tipo de investimento está muito ligado a compra de materiais nem sempre fabricados no Brasil (peças para helicópteros, aviões, submarinos, etc.). Os dois programas de maior execução do investimento deste ministério são: (a) Reaparelhamento e adequação da Marinha do Brasil; e (b) Reaparelhamento e adequação da Força Aérea Brasileira.
Terceiro, no caso dos Ministério das Cidades, os programas mais importantes são os relativos à (i) urbanização e regularização fundiária; e (b) serviços urbanos de água e esgoto. Desconfio que esses programas sejam muito sensíveis ao calendário eleitoral e, como o próximo ano é ano de eleição municipal, acredito que a execução desses programas deve voltar a crescer.
CONCLUSÃO
A conclusão principal que tiraria do que foi divulgado é que, graças ao excepcional crescimento da receita, o governo atual está recuperando o superávit primário que havia sido literalmente maquiado e torturado no ano anterior.
O problema é que um crescimento nominal da despesa em cerca de 10% com um investimento público com forte desaceleração e sob condições que não se repetem no próximo ano (crescimento real “zero” do salario mínimo; suspensão dos concursos públicos e contratações, etc.) está longe de ser uma notícia positiva.
Por outro lado, com uma inflação que anda na casa de 6% ao ano, com um crescimento real do PIB por volta de 4% e com uma meta de primário que não mais depende das revisões do PIB no ano, o resultado primário deve melhorar este ano. Infelizmente, a melhora será temporária e revertida no próximo ano a não ser que a receita continue com um crescimento excepcional (o que duvido) e a inflação continue elevada na casa dos 6% ao ano – o que significa perda de credibilidade do Banco Central no controle da inflação.
Nesta conjuntura, o debate da desoneração da contribuição previdenciária das empresas em cima dos assalariados (isso é uma conta de cerca de R$ 95 bilhões este ano) a ser compensada por um alíquota em cima do faturamento que seja neutra no crescimento da arrecadação é, na verdade, uma boa oportunidade para que essa suposta neutralidade se transforme de fato em aumento de arrecadação como ocorreu com a mudança da base da COFINS em 2003.
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