OBS: este post foi editado em 18 de abril de 2011, na parte que trata da distribuição do lucro do BNDES com seus funcionários devido as convincentes explicações de funcionários do banco. A nota técnica também foi atualizada. A tese central da nota que continua sem explicação é quanto o BNDES ganha com o carregamento de Títulos do Tesouro Nacional, até que os recursos sejam efetivamente repassados ao setor produtivo.
Na semana passada, participei de um workshop no the Brookings Institute em Washington no qual falei sobre BNDES e politica industrial. No entanto, ao preparar minha apresentação, notei algo estranho com o lucro supostamente excepcional do BNDES, em 2010, que foi de R$ 9,9 bilhões, um crescimento de 47% em relação ao lucro de 2009 de R$ 6,7 bilhões.
Acontece que o lucro do BNDES nos últimos dois anos foi, sem dúvida alguma, inflado por aplicações do banco em títulos públicos. Vamos explicar esse truque e para quem se interessar segue a nota técnica anexa que fiz (clique aqui – versão da nota revisada em 18 de abril de 2011).
Por que o BNDES ganhou com titulos públicos? Quando o Tesouro Nacional repassa titulos para o BNDES, nas operações de emprestimos já tão conhecidas, o BNDES fica com um titulo que rende SELIC e passa a dever ao Tesouro uma divida corrigida por TJLP. Assim, enquanto não empresta esses recursos, o BNDES fica com o diferencial de juros e, assim, o seu lucro aumenta de forma artificial.
Há como provar essa tese que o BNDES lucra com operações com Títulos Públicos? Acho que sim. Como se observa abaixo, o resutado das operações do BNDES com titulos e valores mobiliários passou de R$ 2,1 bilhões, em 2008, para R$ 8,4 bilhões em 2010. O aumento do resultado dessas operações é anormal e decorre, em parte, do retorno com titulos públicos como provo a seguir.
Tabela 1 – Resultado de Aplicações em Títulos e Valores Mobiliários e Lucro do BNDES (2005-2010) – R$ mil correntes
Fonte: BNDES, resultado consolidado
O gráfico abaixo mostra que, de 2005 a 2007, as aplicações diretas do BNDES em títulos públicos, que eram de apenas R$ 1 bilhão, passam a crescer substancialmente a partir de 2008. Esses títulos rendem juros para o BNDES (SELIC) maior do que a correção de sua divida junto ao Tesouro Nacional (TJLP) permitindo ao banco um ganho substancial de aplicações em títulos públicos como se vê no gráfico 2 abaixo, que mostra o resultado do banco com aplicações em títulos públicos que passou de R$ 0,81 bilhão, em 2008, para R$ 5,90 bilhões em 2010,; um crescimento de mais de 600%.
Aplicações do BNDES em Titulos Públicos – R$ bilhões
Fonte: BNDES
Resultado do BNDES consolidado com aplicações em Títulos Públicos (R$ bilhões)
Fonte: Nota Explicativa 26.2 pp.90-91 do Balanço de 2010 e Nota Explicativa 25.2 do Balanço de 2009, pp. 74-75
Onde está o lucro excepcional do BNDES de 2010?
Se fizéssemos um exercício contra factual, admitindo que o retorno do BNDES com aplicações em títulos públicos, em 2010, fosse o mesmo que em 2008 (R$ 0,81 bilhões), o lucro do banco seria reduzido de R$ 9,9 bilhões para R$ 4,8 bilhões, um valor inferior ao resultado de 2006, 2007, 2008 e 2009. Assim, parece que o lucro do BNDES, em 2010, foi fortemente influenciado pelo resultado em títulos públicos, além do ganho de R$ 2,8 bilhões que decorreu da baixa da provisão para risco de crédito decorrente da renegociação da dívida da empresa americana AES que foi vendida para o grupo Andrade Gutierrez. Se retirarmos essa baixa da provisão para devedores duvidosos, que não é um ganho recorrente, o lucro do BNDES cai para apenas R$ 2 bilhões, um lucro pequeno frente ao crescimento dos desembolsos do banco.
E a repartição de Lucro com os empregados? ao contrário do afirmado na versão original deste post, o crescimento artificial do lucro do BNDES não parece ter tido relação com o crescimento recorde na repartição de lucro do banco com seus funcionários que passou de R$ 53,9 milhões (2008) para 159 milhões (2010), um crescimento de 194% em dois anos.
Segundo explicações de funcionários do banco, esse crescimento do PL decorreu de três fatores: BNDES passou a pagar aos funcionários o teto de participação equivalente a 3 salários; aumento em 50% no numero de funcionários do banco e criação expressiva de novos cargos em comissão. (explicação incorporada a partir dos comentários ao post original que esclareceram que o aumento do PL dos funcionários não está ligado ao crescimento do lucro do banco).
Resumo da ópera: Por que o Tesouro Nacional deixou que o BNDES ficasse com esse diferencial de juros? Bom, desconfio que a moeda de troca para esse presente dado ao banco é a exigência de maiores pagamentos de dividendos para o Tesouro (ver gráfico abaixo). Agora será que algum economista poderia me explicar como o BNDES aumenta os repasses para o Tesouro que em seguida aumenta a dívida para emprestar mais recursos para o BNDES? Isso é o que se chama de contabilidade criativa — transforma-se uma divida em receita primária.
Pagamento de dividendos pelo BNDES ao Tesouro Nacional – R$ bilhões – 2001-2010
Há como evitar que o BNDES ganhe esse diferencial de juros? A solução é simples. Basta adotar algo semelhante ao que se faz para os bancos regionais que são operadores dos Fundos Constitucionais de Financiamento:
Art. 4o Os saldos diários dos recursos dos Fundos Constitucionais de Financiamento das Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, do FINOR, do FINAM e do FUNRES, bem como dos recursos depositados na forma do art. 19 da Lei no 8.167, de 16 de janeiro de 1991, enquanto não desembolsados pelos bancos administradores e operadores, serão remunerados com base na taxa extra-mercado divulgada pelo Banco Central do Brasil. (Lei nº 10.177, de 12.1.2001)
Assim, enquanto o BNDES não emprestasse os recursos repassados pelo Tesouro , a dívida ficaria sendo corrigida pela taxa extra-mercado que equivale a 95% da taxa selic.
O BNDES é um banco importante para o Brasil e para o financiamento da atividade produtiva. Assim, espera-se que a maior parte do lucro desse banco decorra de sua atividade fim que é emprestar para empresas em atividade produtivas e não de aplicações em títulos e valores mobiliários, em especial, aplicações em títulos públicos como parece ser o caso nos últimos dois anos.
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