Segue abaixo matéria publicada recentemente pela Revista The Economist baseada em uma palestra do ex-ministro e embaixador Rubens Ricupero. Os pontos que Ricupero levanta são interessantes e mostra como o Brasil tem tudo para crescer de forma mais rápida nos próximos anos (ou décadas). É claro que o governo precisa fazer a sua parte.
Revista The Economist – 26 de julho de 2010
Quatro razões para acreditar no Brasil
Quando, em 2001, o Goldman Sachs inventou a sigla BRICs para as maiores economias emergentes, o país que a maioria das pessoas disse que não pertenceria ao grupo foi o Brasil. Hoje, o principal candidato para a exclusão é a Rússia. Mas alguns observadores ainda estão céticos sobre as perspectivas do Brasil. Um deles é Martin Wolf, o comentarista econômico-chefe do Financial Times, que recentemente salientou que a participação do Brasil na produção mundial caiu nos últimos 15 anos, de 3,1% em 1995 para 2,9% em 2009 medido pela paridade de poder de compra (ver artigo aqui). “O Brasil não pode se tornar um grande ator mundial como os dois gigantes asiáticos”, a China e a Índia, Wolf conclui.
Em uma reunião recente com um grupo de investidores em Hong Kong, Rubens Ricupero ofereceu um interessante contra-argumento.Diplomata com vasta experiência e respeitado no Brasil, Ricupero foi secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento em 1995-2004. Embora ele tenha ligações com a oposição ao atual governo, já que anteriormente serviu como ministro da Fazenda no governo de um partido rival, sua análise não é político-partidária. “Pela primeira vez em sua história”, diz ele, o Brasil está gozando “condições propícias em quatro áreas que representavam sérias limitações ao crescimento.” Elas são:
Commodities. A produção de commodities costumava ser considerada uma maldição, ou na melhor das hipóteses, algo que os países deveriam se afastar o mais rapidamente possível (estratégia que o próprio Brasil adotou na década de 1970). Mas ao longo dos próximos cinqüenta anos, segundo Ricupero, metade do aumento esperado na população mundial virá de oito países, dos quais apenas um, os Estados Unidos, não estão aumentado o consumo de commodities a uma taxa exponencial. Os outros são China, Índia, Paquistão, Nigéria, Bangladesh, Etiópia e Congo. Só a China será responsável por 40% da procura adicional de carne em todo o mundo, ressalta. Esta demanda continuará forte, em parte devido ao aumento da população e em parte devido à urbanização, que aumenta a demanda por commodities industriais (como minério de ferro para produzir aço) e carne (em razão das mudanças de hábitos alimentares ligados à urbanização). O Brasil já é um grande produtor de minério de ferro, e se transformou em uma potência agrícola nos últimos 10 anos, tornando-se o primeiro país tropical a se juntar às fileiras dos grandes exportadores de alimentos de clima temperado, tais como Estados Unidos e a União Européia. O Brasil está bem posicionado para se beneficiar do boom dos mercados emergentes produtores de commodities.
Petróleo. Ricupero defende que o sucesso da empresa estatal brasileira de petróleo, a Petrobras, na exploração de petróleo “offshore” transformou a matriz energética brasileira. “Embora não há estimativas precisas e finais sobre o potencial das chamadas reservas do pré-sal na Bacia de Santos”, diz ele, “todos os indicadores apontam que o Brasil esta posicionado para se tornar pelo menos um país exportador líquido de petróleo de tamanho médio. As novas descobertas de óleo e de gás longe do volátil Oriente Médio, deve aumentar importância estratégica do Brasil, bem como melhorar sua balança de pagamentos.
Demografia. O Brasil está colhendo um grande dividendo demográfico. Em 1964, a taxa de fecundidade (número médio de filhos que uma mulher pode esperar ter durante sua vida) era de 6,2. Caiu para 2,5 em 1996, e está agora abaixo do nível de reposição, em 1,8, uma das reduções mais acentuadas no mundo. O resultado foi um colapso na relação de dependência do número de crianças e idosos dependentes dos adultos em idade ativa. Tão recentemente quanto 1990, essa proporção foi de 90 a 100 (ou seja, havia 90 dependentes, sobretudo crianças, para cada um dos 100 brasileiros em idade de trabalhar). Essa relação é agora de 48 para100. Graças a isso, o Brasil já não tem que construir escolas, hospitais, universidades e outras instituições sociais para acompanhar o ritmo do crescimento da população. Eventualmente, a relação voltará a crescer quando a força de trabalho de hoje se aposentar, mas esse problema não aparecerá em décadas. Até lá, o Brasil poderá dar mais atenção à qualidade e não a quantidade de seus gastos sociais, que deveriam, em tese, melhorar a educação da população, saúde, e qualificação dos trabalhadores.
Urbanismo. Urbanismo tanto incentiva quanto acompanha o crescimento econômico. Mas ele também causa problemas. “Muitos dos piores problemas contemporâneos no Brasil”, diz Ricupero, tais como “falta de educação e saúde, transporte público deficiente, da marginalização a criminalidade, derivam da incapacidade do país lidar com as migrações internas de uma forma ordenada e planejada . “Isso está mudando agora, ele argumenta. As ondas de imigrantes para fora do campo e nas cidades mais ou menos terminaram. O Brasil é hoje um país em grande parte urbano: cerca de quatro quintos da população vivem nas cidades. “Para o Brasil, ele conclui, “o período de crescimento frenético e caótico das grandes cidades que hoje ocorre na Ásia e na África já é coisa do passado”.
Ricupero é relativamente cauteloso sobre sua conclusão. “As quatro condições acima”, diz ele, “não significa garantia de sucesso automático.” Ele admite que o Brasil tem ficado para trás em infra-estrutura, por exemplo, e afirma que, se o país tivesse a infra-estruturas que se vê na Costa Rica e Chile (os dois melhores exemplos na América Latina), o crescimento econômico seria de cerca de dois pontos percentuais a mais por ano. Por outro lado, o Brasil também tem algumas outras vantagens: ao contrário da China, Rússia e Índia, está em paz com seus vizinhos (todos os 10 deles). Não é claro se os pontos levantados por Ricupero respondem a Martin Wolf. O Brasil pode continuar ainda um país relativamente pequeno na sua inserção mundial. Mas os fatos levantados por Ricupero continuam válidos e acontecendo (não são projeções futuras), podem ser mensurados e continuarão ainda por décadas. Quem sabe? Talvez eles estejam corretos.
