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Hoje soube por meio de alguns jornalistas que o nosso ministro da fazenda, Guido Mantega, convocou uma entrevista coletiva para anunciar que entraria na campanha eleitoral, desculpe, foi para mostrar o orçamento de um outro país. Não pode ser o Brasil porque na apresentação o crescimento projetado para o PIB de 2015 é de 3%, mais do que o dobro do crescimento projetado pelo mercado, e o governo, no documento divulgado, hoje compara os valores da PLOA 2015 com a PLOA 2014 que foi projetada com base em um crescimento real do PIB de 4% para este ano. 

Olhem os dois quadros abaixo. No primeiro do Projeto de Lei do Orçamento de 2015, o governo compara com outra peça de ficção que foi o Projeto de Lei do Orçamento de 2014, Por que não comparou com o realizado até o terceiro bimestre deste ano como fez no ano passado em um quadro com muito mais detalhes? porque os dados seriam muito ruins e cheios de truques contábeis. 

Projeto de Lei do Orçamento de 2015

PLOA 2015

Projeto de Lei do Orçamento de 2014

PLOA 2014

Os dados que constam na elaboração do orçamento são fora da realidade Por exemplo, o governo projeta para este e para o próximo ano uma conta de juros do setor público (5% e 4,6% do PIB) menor do que o ano passado (5,1% do PIB) quando a taxa de juros Selic era menor. Como? não sei! o mercado projeta uma conta de juros muito mais próxima de 6% do PIB. A única forma de o governo tornar o orçamento consistente com a forte queda da receita e levada expansão do gasto é “torturando os números”. 

Mas além da ficção dos parâmetros que o governo utilizou para elaborar o Projeto de Lei Orçamentária Anual, o que mais me surpreendeu foi a afirmação do ministro da fazenda que ele tem medo da política monetária da oposição. Na verdade, o ministro deveria ter medo da sua própria política econômica que nos levou a um crise de confiança tanto por parte do mercado financeiro quanto por parte dos empresários. 

Mas o que deveria assustar muito o ministro Mantega não deveria ser a oposição, mas sim um objeto que está no seu banheiro de casa e do ministério da fazenda: o espelho. O responsável pela crise atual é o governo e não a oposição. O medo de todos é que o governo continue a achar que  não há nada errado. 

moldura-e-espelho-horus

 

 

 

 

Mercado vs. Governo.

O mercado no Brasil tem andado tão pessimista nos últimos dois anos com a condução erratica e não transparente da nossa política econômica que, qualquer perspectiva de tirar o grupo atual do poder, já anima, exageradamente, o mercado financeiro.

A interpretação que analistas de mercado aqui e lá fora fazem é que a equipe econômica inventou um cipoal de truques e se tornou refém do uso continuo desses truques para não reconhecer o óbvio: a situação fiscal piorou e nos metemos em um buraco tão fundo, superávit primário recorrente e sem truques próximo de “zero”, que será impossível sair dele em apenas um ano de ajuste.

Os candidatos de oposição com chance de ir para o segundo turno sabem disso e querem se livrar desse passado maldito de truques fiscais, práticas que acabaram com a nossa credibilidade aqui e lá fora. A narrativa já está pronta: abrir o custo das estripulias fiscais para a população para mostrar didaticamente o custo das supostas bondades e como a conta será paga. Hoje, o governo “varre a conta para debaixo do tapete”. 

O mercado também acredita nas promessas da candidata do PT de aumentar ainda mais os subsídios e de não fazer ajuste algum na política econômica, pois para o governo não há o desequilíbrio fiscal que todo mundo enxerga até mesmo os assessores diretos do Ministro Mantega. Adicionalmente, o problema do nosso baixo crescimento, na interpretação do governo, seria o baixo crescimento do resto do mundo. Com esse diagnóstico, o mercado “compra” o cenário que o próprio governo vende e enxerga à frente um desastre.

O movimento do mercado financeiro, que alguns interpretam como uma guerra ao PT, é na verdade uma reação racional as declarações da candidata do PT. Isso não aconteceu em 2006 nem tão pouco em 2010 e passou, novamente, a ocorrer nesta eleição porque hoje se sabe, pelo tipo de informação que vaza diariamente do Ministério da Fazenda, que não há plano de voo pós eleição e que a situação fiscal piorou muito além do que o mais pessimista dos pessimistas esperava.

Qual o problema? O problema é que, para um país com elevada dívida pública (quando comparado aos demais emergentes) e com juros elevado, essa estratégia de “tentar enganar” o mercado significa juros mais altos no longo prazo e, logo, uma pesado serviço da dívida pública e carga tributária elevada. Esse será o custo de “enfrentar o mercado” sem armas (poupança pública). 

Enfim, para o mercado, o cenário hoje é acreditar em mudanças e maior responsabilidade fiscal qualquer que seja o candidato de oposição que vença as eleições. No caso do senador Aécio e explicitando aqui o meus viés de participar da equipe do candidato, acho que ele teria maiores condições de fazer uma coalizão política para aprovar uma ampla agenda de reformas, pois já demostrou sua competência como gestor e como político.

No caso da candidata Marina Silva, não tenho como opinar porque não a conheço, mas é fato que o mercado dá o benefício da dúvida para a candidata. E no caso da presidenta Dilma, o mercado passou a acreditar em mais do mesmo e, assim, que a política econômica atual com seus truques contábeis, excesso de intervenção e mudanças constantes continuará.

O que tudo isso significa? Duas coisas. Primeiro, o choque de confiança com a vitória de um dos candidatos de oposição terá que ser referendado no pós-eleição com medidas concretas que sinalizem melhora no ambiente institucional decorrente de reformas microeconômicas e maior responsabilidade fiscal – um ajuste que pode ser gradual, mas será necessário para fugirmos da combinação perversa de baixo crescimento e elevada inflação.

Segundo, no caso de vitória da Presidenta Dilma, a melhor forma de recuperar rapidamente à confiança do mercado é termos um estelionato eleitoral – a presidenta fazer exatamente o oposto do que ela vem prometendo na campanha eleitoral. E se não fizer nada porque o governo “não quer se curvar ao mercado” e ainda colocar Arno Augustin como Ministro da Fazenda? Neste caso, estou curioso para ver como se dará essa queda de braço. Seria um cenário no qual o governo só ganharia perdendo: taxa de juros elevada ao longo de todo o segundo mandato da presidenta Dilma e forte expansão da Div. Liquida do Setor Público nos próximos quatro anos.

Volto a repetir. Da mesma forma que, em 2002, o medo Lula decorria de um discurso equivocado do Partido dos Trabalhadores em relação à política econômica que caracterizou a sus história, o “medo Dilma” decorre da teimosia da presidenta e da sua equipe econômica em achar que a política econômica não precisa de ajustes. A maior oposição à presidenta Dilma é ela própria e seus assessores da área econômica.

É esse comportamento errático de um governo que promete maior responsabilidade fiscal e atrasa repasses do Tesouro para a CEF pagar os programas sociais, que promete moderar repasses ao BNDES e na surdina renegocia toda a divida do banco por quase meio século para reduzir os encargos  sem explicitar custo para a sociedade, que promete reformas estruturais e acena com a ampliação de subsídios que assusta o mercado. Assim, o “terrorismo eleitoral do mercado” vem de dentro do governo e não de fora. 

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Os pingos nos i’s

O economista Arminio Fraga é ultra discreto e preza um bom debate econômico. Dada essas caraterísticas, Arminio detesta “chute na canela”. Há alguns meses, quando falou que nos últimos quinze anos ocorreu um forte aumento real do salário mínimo, alguns “terroristas eleitorais” nas redes sociais passaram a divulgar que o ex-presidente do Banco Central acreditava que o salário mínimo no Brasil já era muito alto.

Uma grande mentira porque Arminio não falou isso e todos nós sabemos que não apenas o salário mínimo no Brasil é baixo como também a renda mediana dos trabalhadores. No entanto, isso não contradiz o forte aumento real do salário mínimo pós-Plano Real, intensificado no governo Lula e com correções menores no governo Dilma devido ao baixo, ou melhor, raquítico crescimento do PIB.

Dito isso, recomendo a todos que leiam o excelente artigo do economista Arminio Fraga hoje na Folha de São Paulo no qual ele refuta uma série de mitos (ou mentiras) que aparecem neste período pré-eleição (clique aqui para ler o artigo). O artigo está muito bom, mas gosto em especial desta parte:

….o governo diz que “quebraram o país e nós pagamos o FMI”. Em 2002, o Brasil quase quebrou, sim, em função do medo do que faria o PT no poder (e que Lula resolveu, para seu eterno mérito). No segundo semestre de 2002 o governo FHC (com anuência da oposição) tomou um empréstimo com o FMI de US$ 30 bilhões. Cerca de 80% do empréstimo foram reservados para o próximo governo, sendo 20% desembolsados (e não gastos) em dezembro de 2002 e o restante já durante o governo Lula. Portanto os recursos ficaram, na prática, à disposição do governo Lula.

O ministro Mantega concedeu uma entrevista ao jornal Valor Econômico na última sexta-feira. Faço aqui alguns rápidos comentários.

(1) Política anticícilica:

Estamos saindo da política anticíclica e passando para a normalização. Durante a política anticíclica, você dá mais estímulo, se permite que o superávit primário, embora sempre tenha um patamar mínimo, seja menor do que em períodos de política não anticíclica. Estamos saindo dessa fase e vamos ter uma recomposição fiscal que vai ajudar a flexibilizar a política monetária, como fizemos em 2011. Basta uma política fiscal mais restritiva e uma política monetária mais expansiva. É claro que isso é uma decisão do Banco Central. Mas as condições estabelecem isso.”……

“Nós tivemos que fazer uma política fiscal restritiva e uma política monetária também restritiva. No próximo ano não precisará ser assim. Basta uma política fiscal mais restritiva e uma política monetária mais expansiva. É claro que isso é uma decisão do Banco Central, é bom deixar claro. Mas o que eu estou dizendo é que as condições estabelecem isso”.

Aqui não estendi nada porque, na própria cabeça do ministro, o que ele falou não deve estar muito claro. O gasto público vem crescendo muito desde 2008 e, pela composição do gasto, nota-se que a forte expansão não é resultado de uma política anticíclica, pois o crescimento se dá em cima do crescimento das despesas permanentes.

Por exemplo, em 2009, quando o crescimento do PIB foi negativo, a despesa primária do governo central cresceu 1,2 ponto de percentagem do PIB. Em 2010, ano seguinte, quando o crescimento real do PIB foi de 7,5%, a queda da despesa primária do governo central foi de apenas 0,2 ponto do PIB. Ou seja, nos dois anos, o resultado foi um crescimento liquida da despesa primária do governo central de 1 ponto do PIB. Isso mostra que a despesa não caiu com a volta do crescimento, o que mostra que, do lado da despesa, não há política anticíclica mas sim aumento do gasto permanente.

(2) Contas públicas: “As nossas contas públicas estão absolutamente organizadas. O superávit primário, embora menor do que em 2008, é um dos maiores do mundo. Dizer que há uma desorganização fiscal é um absurdo.

Na verdade, o correto seria dizer que aqueles que negam a desorganização fiscal falam um absurdo. Nos últimos 12 meses ate junho, o superávit primário do setor público foi de 1,4% do PIB. Desse total, metade foi o REFIS e o leilão de libra de novembro de 2013. Assim, sem essas receitas extraordinárias o primário real estaria em 0,7% do PIB. Mas a situação é ainda pior.

Como o governo vem atrasando uma série de pagamentos (subsídios, precatórios, etc.) e agora até mesmo repasses para a CEF pagar benefícios sociais, o superávit primário sem truques e receitas extraordinárias deve estar entre “zero” e 0,5% do PIB. A dívida pública este ano já está crescendo e essa trajetória continuará neste e no próximo ano, dada combinação perversa de um elevado déficit nominal acima de 4% do PIB e um crescimento médio da economia neste e no próximo ano de menos de 1%.

O déficit nominal do setor público neste e no próximo ano deverá ficar acima de 4% do PIB, o que corresponde já neste ano a um crescimento do déficit nominal do setor público de pelo menos 65% em relação ao inicio do governo Dilma e sem perspectiva de melhora no curto prazo. Isso poderá nos custar o grau de investimento, mas mesmo assim, o nosso ministro da fazenda acha que está tudo ótimo.

(3) Atraso de pagamentos-1:

Nós estamos pagando as contas absolutamente em dia. O governo federal é o único que paga precatório todo ano. As nossas contas estão muito bem ajustadas e muito bem fiscalizadas. Se tivesse alguma coisa fora do lugar, o TCU não aprovaria as nossas contas, estaríamos sendo imputados de algum equívoco, algum erro, o que não ocorre.”

Na verdade é justamente o contrário. O governo federal SEMPRE pagou nos últimos dez anos as sentenças judiciais e precatórios da despesa de pessoal e previdência no mês de abril. Mas este ano, inesperadamente, resolveu postergar o pagamento dessas despesas para o final do ano, depois das eleições. Alguém sabe por que? Eu explico. Porque depois das eleições o problema será de outro ou, no caso de vitória do atual governo, se faz um novo truque fiscal.

A propósito, no caso do TCU, posso garantir que o órgão tem sido bastante crítico da onda de truques que tem marcado a gestão atual do Tesouro Nacional e Ministério da Fazenda.

(4) Atraso de pagamentos-2:

Os fluxos de pagamento são normais, como sempre foram. Não há um fluxo perfeito, porque você faz pagamentos todo dia. É bom lembrar que as instituições financeiras têm vantagem quando transferem recursos ao setor público. Elas têm um saldo de caixa financeiro que é conveniente. Então, você pode ter durante um mês ou dois momentos em que a conta fica devedora. Mas é momentaneamente. Hoje, por exemplo, os fluxos estão perfeitamente ajustados. Se você pegar na década de 90 e olhar os fluxos do Tesouro, você vai encontrar isso”.

O que mais me impressiona no ministro é a sua capacidade de negar o óbvio. Na verdade, de acordo com informações que saem diariamente do Ministério da Fazenda sabe-se muito bem que:

(a) De 2007 a 2011, ou seja durante 60 meses, em apena um único mês houve atraso no repasse do Tesouro para a CEF pagar o bolsa família. Em 2012 e 2013, em cada um desses anos o atraso ocorreu quatro vezes e, neste ano, de janeiro a maio, ou sejam cm cinco meses, ocorreram atrasos de repasses do tesouro para a CEF em quatro meses. Será que o ministro acha que agente não sabe disso?

(b) O governo não tem pago os subsídios – equalização de juros – devido aos bancos públicos. O caso exemplar disso é o BNDES, que no balanço deste ano de junho mostra que tem R$ 21,5 bilhões para receber do Tesouro, ante pouco mais de R$ 13 bilhões em junho do ano passado. Ou seja, um crescimento de 65% em um ano. Verdade seja dita. O Min. da Fazenda baixou uma portaria, portaria 357 de 2012, que permite o governo postergar por 24 meses o reconhecimento desses subsídios. Esta portaria é uma das coisas mais absurdas que já vi.

O mais triste é quando ministro fala que “Eu desafio alguém aqui a me mostrar que houve, que a gente faz na política fiscal algum descumprimento legal”. Na verdade, o governo vem destruindo a LRF utilizando brechas legais da Lei. Por exemplo, não há nada que impeça que o governo atrase todos os seus pagamentos no ultimo mês do ano.

Mas um governo que faz isso de forma planejada o faz com o intuito de burlar o mercado. Só que o custo disso tem sido a perda de credibilidade quase contínua da política econômica. O custo aparece em  juros maiores na divida pública como já está acontecendo.

(5) Taxa de Juros de longo prazo:

A TJLP não pode ser tratada que nem sanfona. A Selic é uma taxa de curto prazo e tem que ter flexibilidade por causa da política monetária. A TJLP é taxa de juros de longo prazo. Se você tratar a TJLP como uma taxa de curto prazo, você está perdido, porque aí o longo prazo ficará turbulento. Se a Selic ficar muito tempo num patamar elevado, aí sim teremos que ajustar a TJLP, como já fizemos em outras ocasiões”.

Aqui não há muito espaço para discutir. A TJLP hoje está em 5% ao ano, mesmo valor quando a Selic estava em 7,25% ao ano. Como a Selic está em 11% ao ano, essa diferença brutal causa um enorme custo fiscal (financeiro) para o Tesouro que aparece no custo da divida pública.

Hoje uma das pessoas que mais tem alertado para este problema é o ex-braço direito do ministro Mantega, Nelson Barbosa. Como pode duas pessoas que passaram mais de três anos trabalhando juntas divergirem tanto em um diagnóstico? Algum dos dois está errado e, neste caso, acho que é o ministro da fazenda, que se recusa a reconhecer que não faz nenhum sentido a TJLP ser menor do que a inflação e muito abaixo da Selic.

(6) Ajuste fiscal em 2015: “Não vou propor nenhum ajuste na meta. Em 2015 acho que você vai ter que repetir o que fizemos em 2011. Uma das razões é que nós não temos mais que fazer política anticíclica. Estabelecemos a meta na LDO, que é de 2% a 2,5% do PIB.”

Vamos voltar a 2011. Naquele ano, o governo cumpriu integralmente a meta do primário de 3,1% do PIB devido a dois fatores atípicos: (i) forte crescimento da arrecadação em 1 ponto do PIB que refletiu o crescimento real de 7,5% do PIB em 2010; e (ii) reajuste real zero do salario mínimo. O crescimento do primário em 2011 em 1 ponto do PIB veio integralmente do crescimento da receita, pois a despesa não diminuiu como % do PIB.

Eu pergunto ao leitor: (1) qual será o crescimento real do salário mínimo no próximo ano? 2,5% que foi o crescimento real do PIB de 2013; (2) haverá um forte crescimento da arrecadação devido ao forte crescimento do PIB este ano? Claro que não. O crescimento do PIB este no deverá ser menos de 1% e o crescimento esperado de 2015 menos da metade do que foi 2011. Logo, a única forma de o ministro estar correto é se tivermos, no próximo ano, um forte crescimento da carga tributária que leve a uma aumento de arrecadação de 1 ponto do PIB.

Em resumo, apesar de o respeito que tenho pelo nosso ministro da fazenda e do seu esforço para recuperar o crescimento da economia e a confiança do mercado, a sua entrevista ao jornal Valor Econômico nos deixa com mais dúvidas do que respostas e ainda alimenta a perspectiva de que, em um próximo governo Dilma, a política econômica será mais do mesmo com mais truques fiscais pois, como destacou o ministro, “Eu desafio alguém aqui a me mostrar que houve, que a gente faz na política fiscal algum descumprimento legal”. Se é tudo legal, por que fazer diferente?

Arminio na VEJA

Se você é assinante ótimo. Mas se você não é assinante vale a pena comprar a edição da Veja que começa a circular hoje e que tem o economista Arminio Fraga nas páginas amarelas.

Na quinta estive com ele no Rio. O que me impressiona no Arminio é uma clareza do que e de como fazer. O interessante é que hoje vários candidatos lutam para dizer para o mercado que: ” vamos recuperar o tripé macroeconômico” e esquecem de dizer que: “vamos recuperar o que o Arminio fez lá atrás em um governo do PSDB”.

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O governo deveria estar MUITO preocupado em mandar sinais positivos para o mercado. Ao invés disso, o que se vê todos os santos dias é muita gente declarando em off, na Caixa Econômica Federal (CEF) e no Ministério da Fazenda, o absurdo dos atrasos sucessivos dos repasses do Tesouro Nacional para a CEF pagar benefícios sociais. 

Essa confusão já foi esclarecida e vai diminuir? Não. O Tesouro ainda não explicou porque continua a utilizar o seu “cheque especial” na CEF.  As notas de esclarecimento do Tesouro Nacional partem do pressuposto que as pessoas e os jornalistas não entendem nada de contas públicas e, essas notas, não esclarecem coisa alguma. É um exercício fútil de escrever e não explicar coisa alguma. Prefiro as notas em off do Ministério da Fazenda. 

Nesta quarta-feira, o jornalista Ribamar Oliveira do jornal Valor Econômico, que dispensa apresentação, fez nova matéria sobre o tema (clique aqui), mostrando os atrasos nos repasses do Tesouro para a CEF pagar o seguro desemprego. E, nesta quinta-feria, o Estado de São Paulo e o Folha de São Paulo voltam a cobrir esse assunto. 

Depois vai diminuir? Não. Hoje soube que o próprio Banco Central anda irritadíssimo com este assunto e outros órgãos públicos que fiscalizam as contas do governo também. Que há truque contábil nessa história todo mundo sabe. O que não se sabe é se essas operações, atraso de repasses do Tesouro para a CEF, poderiam ser caracterizadas como empréstimo de um banco público para o seu controlador. Se este for o caso, o debate passa a ser sobre a legalidade ou não dessas operações. 

E como se esta confusão toda não fosse suficiente, li hoje no blog do jornalista Vicente Nunes do Correio Braziliense (clique aqui), que há gente do governo querendo, na eventualidade de um novo mandato da nossa presidenta, partir para a briga com o mercado financeiro: 

A vingança será cruel: Não é de hoje que o Palácio do Planalto está irritadíssimo com o mercado financeiro. Mas acredita que fará muitos analistas engolirem a vitória da presidente Dilma em outubro. Para assessores da candidata petista, nada será mais gratificante do que submeter, por mais quatro anos, bancos e corretoras que têm jogado contra o governo à política econômica dilmista.”

Se na hipótese, ainda remota, de um segundo governo da nossa presidenta a sua equipe partir para uma briga direta com o mercado financeiro, o custo dessa briga será uma elevadíssima taxa de juros e, possivelmente, o nosso rebaixamento pelas agências de classificação de risco.

O governo não esta nem ai? Tolice. Apesar de falar grosso contra o “dinheiro especulativo” o governo, em junho do ano passado, reduziu de 6% para “zero” o IOF sobre aplicação de estrangeiros em renda fixa. Esses investidores (ou especuladores na linguagem do governo) conseguem aqui uma taxa de juros que não conseguem em nenhum outro lugar do mundo. O governo não só estimulou a entrada de capital especulativo, mas reza todos os dias para que o capital especulativo continue jorrando no nosso Balanço de Pagamentos. O mais engraçado é que tem gente no governo que acha que isso é sinal de confiança. 

O governo deve evitar uma briga direta como o mercado no estilo “vocês vão ter que me engolir”. A melhor forma de o governo ganhar a queda de braço com o mercado é melhorar sua comunicação e transparência de suas ações, algo que fez muito bem até 2006. Partir para briga com o mercado é uma estratégia suicida em um país de poupança baixa que precisará de poupança externa para crescer. A vingança será cruel? vingança de quem cará pálida? 

Hoje matéria do Valor fala que o Tesouro está retendo repasses dos subsídios do crédito agrícola ao Banco do Brasil. Como a despesa de equalização de juros é uma despesa primária, esse atraso nos repasses para o Banco do Brasil aumentaria, artificialmente, o superávit primário. Segundo o jornal: “Os créditos que o banco federal têm a receber da União praticamente dobraram em um ano, chegando perto de R$ 8 bilhões em junho”.

Mas a presidenta Dilma Rousseff negou que isso esteja acontecendo (clique aqui) e até usou o tradicional “meu querido”. Segundo a presidenta declarou:

“Eu não concordo, você me desculpe, mas eu não concordo que o Tesouro federal esteja fazendo isso. Não, não concordo”, disse Dilma, em visita de campanha as usinas do rio Madeira, em Rondônia. “Meu querido, eu não concordo com essa análise. Não concordo, não concordo, sinto muito.”

E agora, quem tem razão, a presidenta ou o jornal valor econômico? Acho que o jornal e é muito fácil ver isso. Como? é só pegarmos o valor inscrito em restos a pagar desses programas e comparar o fluxo de pagamento e quanto falta a ser pago até o final do ano, comparando com o mesmo período do ano passado. Eu já havia feito essa conta até junho e cheguei a um número muito próximo do valor. Vou atualizar os dados de janeiro a julho com mais detalhes e depois mostro aqui. Mas apenas para antecipar a minha tese, a situação é muito pior do que a matéria do Valor sugere. 

Além de atrasar os repasses dos programas agrícolas, algo que falei no programa da Globo News quando lá estive há cerca de um mês e o meu colega Márcio Holland prontamente falou que eu tinha mentalidade de contador, o governo não está pagando a conta do PSI e nem mesmo contabilizando os subsídios recentes do PSI como restos a pagar, já que por uma norma do Min da Fazenda o governo só reconhece como devido os subsídios do PSI após 24 meses. 

Querem um número? pois bem aqui vai um número que depois vou provar com documentos oficiais. Hoje, se o governo fosse pagar todos os subsídios do PSI e do credito agrícola já concedidos pelos bancos públicos e não pagos pelo Tesouro, estaríamos falando de uma conta entre R$ 30 bilhões e R$ 35 bilhões. Não se preocupem que a conta vai continuar crescendo, pois o governo não tem recursos para pagar. Como dinheiro infelizmente não nasce em árvore, todos nós teremos que pagar essa conta (posso falar em bondade?) em algum momento no futuro. 

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