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Essa matéria do sitio UOL é o melhor retrato da burocracia no Brasil. Empresas retransmissoras de TVs precisam regularizar seu funcionamento. Mas para serem atendidas pela ANATEL em Recife, precisam antes conseguir uma senha na próxima segunda feira no escritório da instituição (leiam a matéria aqui).

Qual o resultado dessa regra? as companhias que precisam conseguir uma senha para serem atendidas por um órgão púbico contrataram pessoas de baixa renda na periferia do Recife para formar um fila de vários dias para conseguirem a tal senha. Esse é o melhor exemplo de ineficiência e de burocracia de uma agência pública. Ao invés de deixar as pessoas nas ruas, seria muito mais humano e eficiente simplesmente distribuir a senha por internet ou por telefone.

A ANATEL deveria ser multada e deveria pagar os salários prometidos a cada um dos guardadores de lugar por permitir tamanha sandice de algo que poderia ser resolvido de forma muito mais simples.

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Foto: UOL

Quem conhece Marcos Lisboa sabe como deve ter sido difícil para ele debater com Marcelo Neri sobre desigualdade de renda e os desafios para a continuidade deste processo (veja o debate aqui).

O grande problema nesse debate é que, de acordo com o Marcelo Neri, há dois modelos em disputa. Um modelo que prioriza o ajuste macro e um outro modelo que priorizaria a continuidade da queda da pobreza e desigualdade. Ou seja, estaria em disputa o modelo dos homens gananciosos e egoístas da Faria Lima, da Paulista e da Vieira Souto contra o modelo dos bons que favorece o semi-árido nordestino, baixada fluminense, etc. Como coloca Marcelo Neri:

“Eu acho que existe uma lógica. Quando a desigualdade cai durante 12, 13 anos consecutivos – e começou a cair em 2001 – ela beneficia um mais uns do que outros. Isso mexe com interesses. Não estou falando que esse é o seu projeto… Estou fazendo o contraponto porque acho que a gente está num momento em que existe uma polarização que é muito ruim para o País. E há razões de economia política por trás disso…”

Marcelo insiste neste ponto. Meu amigo Marcos Lisboa adverte, no entanto, que este é um falso debate, pois ninguém seria contra a redução da pobreza e da desigualdade de renda, mas sim a melhor forma –leia-se politica econômica- para continuar com esse processo. Marcos Lisboa lembra que:

“Essa polarização agrada à política. Agrada à retórica. Vai de encontro aos temas centrais. A questão é: a política social no Brasil não é conquista de um governo. É uma conquista da sociedade e precisa ser preservada. Estamos ainda hoje nos beneficiando do que o País construiu em 20 anos. Infelizmente, houve essa opção pelo protecionismo, pelo fechamento da economia, por essa agenda de concessão de benefícios a setores escolhidos que batem em Brasília – um benefício tributário para o setor A, para o setor B, uma proteção para a indústria C. Minha preocupação é que isso vai colocar em risco tudo que eu e você, Marcelo, acreditamos que seja o melhor para o social.”

A tese do Marcos é muito simples: a estagnação do crescimento da produtividade e logo, o baixo crescimento da economia, colocam em risco as conquistas sociais que não é de um ou dois governos, mas de vários. Acho que o próprio Marcelo Neri falava isso. Por exemplo, vamos dar uma olhada em um longa entrevista que Marcelo Neri deu, em 2010, ao jornalista Fernando Dantas do Estado de São Paulo (clique aqui). Destaco alguns trechos desta entrevista.

Fernando Dantas: A pobreza e a desigualdade caíram por causa dos programas sociais?

Eles ajudaram, sem dúvida, mas o grande destaque é a renda do trabalho. Basicamente, 70% do aumento de renda média, e 2/3 da redução da desigualdade no Brasil desde 2003 se deve à renda do trabalho. No Nordeste, que seria a terra dos programas sociais, a chamada economia sem produção, a renda do trabalho e a renda total crescem na mesma taxa, ou seja, há algo mais sustentável no Nordeste do que se pensa.

Fernando Dantas: Por que isso está acontecendo?

Provavelmente as pedras fundamentais foram colocadas lá no Plano Real, que deu estabilidade para o governo e para as empresas, e proporcionou as condições de se pensar o futuro, uma agenda mais estrutural, e, inclusive, se pensar em colocar todas as crianças na escola. Os resultados que vemos hoje têm por trás um longo período de boas políticas econômicas e sociais, e o Plano Real talvez tenha sido o momento inicial desse processo.

Fernando Dantas: A educação está ligada ao aumento da renda do trabalho?

Sim. Nós tínhamos 16% das crianças de 7 a 14 fora da escola em 1990, em 2000 esse número já tinha caído para 4% e agora está em 2%. Então, à medida que essas crianças, que eram adolescentes nos anos 90, chegaram ao mercado de trabalho, com a inflação baixa, a sociedade sabendo que não viria mais um plano econômico maluco para embaralhar as cartas, a economia começou a produzir esse crescimento chinês na base da distribuição. Houve abertura da economia, estabilização, reforma meia-sola da Previdência, privatização. Isso traz custos imediatos mas, em prazo mais longo, a economia ganha competitividade. E as próprias crises dos anos 90 obrigaram o Brasil a fazer o dever de casa, com ajuste fiscal, o Proer, que deu solidez ao sistema bancário, etc.

Marcelo inclusive, era até um pouco radical ao defender, em 2010, que o governo Dilma, que começaria em 2011, não desse aumentos reais para o salário mínimo. Como ele afirmou ao ser questionado sobre esse tema:

Fernando Dantas: Como o sr. analisa o papel do aumento real do salário mínimo na redução da pobreza?

Estudos que fizemos na década de 90 mostram que, logo depois do Real, o aumento do salário mínimo de R$ 70 para R$ 100 foi responsável por boa parte a redução de pobreza. Foi uma queda instantânea, logo em maio de 95 caiu 11%. Isso aconteceu porque o salário mínimo era muito baixo, e pegava os pobres. Mas, ao longo dos anos, o salário mínimo foi aumentando de valor, tendo dobrado em termos reais desde 2000. Hoje em dia, esses efeitos positivos de redução de pobreza e de desigualdade foram perdidos, o que os dados mostram com clareza, numa análise mais minuciosa, como a dos aumentos de 2005 e 2006. Não é que a pobreza não caiu, é que tem de olhar com lupa para ver o efeito sobre as pessoas que são afetadas pelo mínimo.

Fernando Dantas: O que o sr. faria em relação ao mínimo?

Acho que deveriam parar de aumentar o salário mínimo em termos reais. Porque as pessoas já não são mais pobres. Quem recebe um salário mínimo, ou quem tem na família alguém que recebe um mínimo, já não é mais pobre, por definição. Com um salário mínimo de R$ 510, você está fazendo política para a classe C, no máximo D. E o que a classe C precisa é de mais acesso a mercado. É a classe E que precisa necessita de ação do poder público, e o Bolsa-Família é o caminho para isso. Eu daria toda a ênfase ao Bolsa-Família, e riscaria os reajustes do salário mínimo. Eu sei que quem fala disso apanha à beça, mas faz parte…

Gosto muito dos dois economistas, tenho um grande respeito pelos dois. Mas todos sabem da minha amizade e admiração por Marcos Lisboa que é talvez um dos economistas mais completos do Brasil e uma das pessoas que mais contribui para o debate econômico.

Em resumo, vale destacar três pontos. Primeiro, como se pode ver acima, Marcelo Neri concordava, em 2010, com a tese que Marcos Lisboa defendeu no debate desta semana no jornal o Estado de São Paulo e, em alguns aspectos, chegava até mesmo ser mais radical do que Marcos. A tese é que precisamos de uma economia ajustada do ponto de vista macro e micro para que o crescimento da produtividade e, logo, do PIB possam se transformar em redução da pobreza e desigualdade.

Segundo, meu colega Armínio Fraga foi nos últimos meses atacado recorrentemente nas redes sociais porque falou que, nos últimos 20 anos, houve um forte crescimento real do salario mínimo. Uma verdade. Marcelo Neri, que é Ministro do governo Dilma, não apenas falou a mesma coisa como foi além: aumentos do mínimo perderam eficácia como politica de combate a pobreza e reajustes reais do salário mínimo deveriam ser “zero”. Quem fala isso não é um neoliberal, mas um acadêmico comprometido com estudos da pobreza e que hoje é Ministro de um governo do PT. (PS: dado o desastre do baixo crescimento, o crescimento real médio do salario mínimo nos próximos três anos será de 1% ao ano. Assim, essa regra não pesará tanto nas contas fiscais do próximo governo, se voltarmos a crescer).

Terceiro, os dados da PNAD divulgados ontem mostram que a desigualdade de renda não diminui desde 2011 e que, em 2013, houve aumento da taxa de desemprego. Esses dados da PNAD batem exatamente com o alerta que Marcos Lisboa fez no debate com Marcelo Neri no Estado de São Paulo. O mesmo alerta tem sido feito por vários economistas, eu inclusive, e somos todos tachados de pessimistas.

O que está em jogo nesta eleição não é ser contra ou a favor da redução de pobreza e desigualdade. O que está em debate é o modelo econômico atual, a Nova Matriz Econômica, que se baseia no forte crescimento da dívida pública, concessão excessiva de subsídios, falta de transparência fiscal, aumento da proteção da economia e politicas setoriais discricionárias para reduzir o efeito negativo da atual politica macroeconômica nos diversos setores da economia. Com essa política, será difícil continuar com mais uma década inclusiva.

Fica aqui minha solidariedade com os funcionários de uma das melhores empresas do Brasil, a Petrobras, e a minha torcida para que os eventuais erros cometidos pela antiga diretoria nomeada pelo governo atual sejam esclarecidos e, se houver culpados, que sejam devidamente punidos de acordo com a Lei.

A Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça Federal estão de parabéns pelo excelente trabalho em curso para acabar com a suposta quadrilha de criminosos que utilizava a empresa para roubar para partidos da base de coalizão do governo, conforme noticiado pela imprensa local. É uma pena que ainda hoje existam casos do uso político de estatais pelo governo de plantão, uma prática comum do passado que voltou a nos assustar no Brasil do Sec. XXI.

Por sinal, o que se deveria estar discutindo nesta eleição não é a independência do Banco Central, que é algo secundário em um governo que de fato permita ao Banco Central trabalhar de forma independente. O que deveríamos estar discutindo é o eventual uso político da Petrobras, os excessos da política de conteúdo nacional que atrapalham os investimentos da Petrobras e o (semi) congelamento do preço da gasolina.

É importante acompanhar melhor o caso Petrobras porque, se comprovado o que tem sido publicado na imprensa, é um escândalo com o potencial de  manchar a biografia de políticos importantes e dar início a um novo mensalão. É claro que, como me falou um conhecido na Petrobras, há câmeras de segurança em todos os lugares da companhia, o que tornará fácil para a polícia identificar políticos que frequentavam o prédio e mapear o teor desses encontros.

Em resumo, mais importante que o debate da independência do Banco Central talvez seja discutirmos o uso político das estatais financeiras, não financeiras e a influência do governo nos fundos de pensão. Esse uso político de empresas estatais pode mostrar, inclusive, que os mecanismos de transparência exigidos pela legislação que regula os demonstrativos de companhias abertas não é suficiente para evitar “roubo político” de empresas estatais.

Por que o Conselho de Administração não notou nada de estranho? como foi possível que um diretor tivesse tanto poder para levantar recursos sem a suspeita do departamento jurídico da empresa? como a auditoria interna da companhia e auditores externos não identificaram os supostos desvios de recursos? Essas e outras perguntas precisam ser devidamente esclarecidas.

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No more aggressive comments. please!

Dado o tom agressivo dos comentários e a falta de tempo para ficar filtrando as mensagens, o blog não mais aceitará comentários até o final das eleições. Depois reativo os comentários. Quem ficar incomodado com essa política sugiro que não leiam o blog. Abs, Mansueto

Essa noticia publicada há pouco no site da Folha de São Paulo (clique aqui) mostra muito bem o desespero do governo em relação as eleições:  “Das 23 punições impostas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aos presidenciáveis até a última segunda-feira (15), 17 foram aplicadas contra a candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT). A petista lidera, de longe, o ranking das decisões desfavoráveis da Justiça eleitoral.

Por que o PT faz um jogo sujo do qual já foi vitima em 1989 e 2002? porque o principal objetivo do partido é se manter no poder. Mas qual o problema de o partido perder as eleições e voltar com toda a força em 2018? o problema é que se o PT perder a eleição pode ficar comprovada que a tese do Lulismo não se sustenta. Explico.

O cientista político André Singer desenvolveu a tese do Lulismo, uma transformação no eleitorado do PT que até 2002 era constituído pelas pessoas de maior escolaridade nos grandes centros urbanos. A partir de 2006, o eleitorado o PT ficou cada vez mais concentrado nos segmentos que ganham até  2 salários mínimos,  eleitores que tem no máximo ensino fundamental, concentrado nas regiões mais pobres. Segundo Singer, a fidelidade desta classe de menor renda ao presidente Lula estaria ligado à maior atenção que ele deu aos mais pobres, o “santo Lula”.

Há dois problemas com essa tese. Primeiro, André Singer no seu livro coloca a política social em conflito com a política econômica que ele classifica como neoliberal que prevaleceu no primeiro governo Lula. Assim, o autor não reconhece que a base para a política social (recursos para financiar o aumento dos gastos) foi o maior crescimento que decorreu das reformas neoliberais da década de 1990 e do primeiro governo Lula em conjunto com o ambiente externo favorável. Sem crescimento é difícil acreditar que haverá espaço fiscal para continuar a forte expansão do gasto social.

Mas o segundo problema mais grave com a tese do “Lulismo” é o que o meu amigo e meu cientista político preferido, Marcus Melo da UFPE, chama de “qualunquismo” (leia o fascinante artigo que ele escreveu para o Valor aqui). Segundo Melo, “O argumento do “qualunquismo” tem sido defendido com base em evidências de que o eleitor dos grotões sempre tende a apoiar quem está no governo, mesmo quando não mantém afinidades eletivas com ele”.

Dito de uma forma mais simples e direta, o eleitor de baixa renda no Nordeste não morreria de amores por Lula. Esse grupo votaria em qualquer governo que esteja no poder e aumente as transferencias para os mais pobres. Se o argumento de Marcus Melo for válido e se o PT perder o poder,  os eleitores de baixa renda notarão que programas que melhoraram o seu bem estar, como o Bolsa Família, não são política exclusivas do PT, mas políticas de Estado muita das quais decorrente do contrato social estabelecido na Constituição Federal.

O gasto público que mais cresceu no Brasil desde 1990, em todos os mandatos de diferentes presidentes, sempre foi o social – vejam essa coluna do Samuel Pessoa. Muitos economista e cientistas políticos identificam esse fenômeno como resultado da redemocratização do país em um contexto de elevada desigualdade.

Logo, o PT para voltar ao poder teria que se reinventar e não poderia mais usar o terrorismo eleitoral e a baboseiras da comida sumindo da mesa por causa do Banco Central independente. A “prova do pudim” mostraria para o eleitor que a melhoria do cenário econômico com maior transferência de renda para os mais pobres com o Bolsa Família, por exemplo, não depende de um partido específico. isso significa que o risco para o PT é não apenas perder uma eleição, mas ver a tese do “Lulismo” ruir e, logo, ter que se reinventar para conquistar novamente o eleitor urbano de maior escolaridade para novamente voltar ao poder.

O que mais assusta ao PT no caso de perder essa eleição não é o “Lulismo” mas o “qualunquismo”. Assim, do ponto de vista racional,  acho que o partido continuará com o terrorismo eleitoral, ainda mais em um contexto no qual o partido corre o risco de ganhar em apenas dois estados da Federação e ter sua bancada federal reduzida em 10% de acordo com alguns cientistas políticos.

Aqui vai mais uma vez um post sobre a estrutura da despesa pública para tentar mostrar para os economistas que acreditam em choque de gestão que tal “choque”, embora desejável, não conseguirá produzir uma forte economia dos gastos públicos.

Há sim espaço para melhorar a gestão do setor público, aumentar um pouco o primário e melhorar a qualidade do serviço publico ofertado. Mas achar que um choque de gestão vai produzir uma forte economia que possibilitaria mudar a dinâmica do gasto público e/ou reduzir de imediato a despesa primária (% do PIB) é uma tese equivocada.

Eu não consigo entender como tantos economistas bons vivem repetindo tal absurdo como outro maiores. Ontem mesmo no debate na FGV um dos presentes falou que não era preciso se preocupar com gasto social porque aumento da tributação para financiar programas de transferência de renda não aumenta a carga tributária líquida!

Ou seja, se o próximo governo aumentar a carga tributária em 5 pontos do PIB e transformar toda esse aumento de carga em transferências para as famílias (gastos com previdência e assistência social) não haveria problema algum porque o que importa é a carga tributária bruta. Como é que existem pessoas com Doutorado em Economia que pensam tamanho absurdo?

Mas vamos ao que importa: os dados. Tenho esses dados para 2013 e para anos anteriores, mas aqui vou disponibilizar apenas os dados de 2013. A despesa primária do Governo Central (Governo Federal, Banco Central e Previdência) foi de R$ 914 bilhões ou de 18,89% do PIB no ano passado. Como essa despesa foi distribuída nos grandes itens do orçamento público?

(1) Gasto com pessoal e transferência de renda

Como mostra a tabela 1 abaixo, 73% dessa despesa no ano passado foi para o pagamento de benefícios sociais ligado a programas de transferências de renda para famílias e indivíduos, previdência, mais pagamento dos funcionários públicos federais ativos e inativos.

Tabela 1 – Gasto Não Financeiro do Governo Central com Pessoal e Transferência de Renda – 2013 – % do PIB.

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Fonte: Tesouro Nacional e SIAFI. Elaboração: Mansueto Almeida

Dada lista de programas acima, há alguma possibilidade de um ajuste rápido em alguma dessas contas em um primeiro ou em um segundo ano de governo? NÃO! Mesmo que fosse possível o governo fazer um corte linear de 25% dos funcionários ativos, ou seja, colocar para o olho da rua 288 mil funcionários públicos, a economia seria de 0,5 ponto do PIB.

É possível colocar 288 mil funcionários públicos para o olho da rua em um ano? Claro que não. Em 11 anos de governo do PT, o número de funcionários públicos ativos passou de 912.192, em 2002, para 1.152.080 em 2013, crescimento de 240 mil funcionários (ver Boletim Estatístico de Pessoal), número inferior ao que seria necessário cortar em apenas um ano para ter ganho de 0,5 ponto do PIB.

O meu colega economista Nelson Barbosa acredita que, se a presidenta Dilma for reeleita, mudanças ocorrerão no programa abono salarial. Minha pergunta: o programa será reformulado ou simplesmente será extinto? Se o programa acabar, o que acho improvável mesmo para uma presidenta durona como a nossa, a economia seria de 0,4 ponto do PIB.

Ou seja, dos itens acima, para economizar o equivalente a 0,9% do PIB seria necessário corta por completo o abono salarial e colocar para o olho da rua de uma só vez 25% do pessoa ativo. É possível? NÃO. Na tabela acima analisamos a grande folha de pagamento da união com pessoal e programas que envolvem transferência de renda, vamos agora olhar as demais despesas não financeiras do Governo Central.

(2) Gastos de custeio (sem programas de transferência de renda) e Investimento

Mas não daria para cortar em outro lugar? A tabela 2 abaixo mostra os outros itens da despesa pública não financeira do Governo Central. Essas outras despesas representaram 5% do PIB, em 2013, equivalente a 27% da despesa primária do Governo Central.

Tabela 2 – Gastos de Custeio e Investimento do Governo Central – 2013 – % do PIB.

TABFISCA2

Fonte: Tesouro Nacional e SIAFI. Elaboração: Mansueto Almeida

Das contas acima, a conta de subsídios (inclui Minha Casa Minha Vida e subsídios ao setor elétrico) seria passível de corte. Mas como ninguém com juízo fala em cortar o Minha Casa Minha Vida, a única economia imediata aqui seria os R$ 8 bilhões que o governo gastou em 2013 com subsídios ao setor elétrico. Mas isso é apenas 0,17% do PIB.

Por que não cortamos custeio de saúde e educação? Você pode até cortar, mas se fizer isso terá que gastar mais com pessoal e/ou investimento na mesma área. Esses dois gastos seguem regras de vinculação (um em relação ao crescimento do PIB nominal e ou outro em relação a receita de impostos) e, assim, maior eficiência não reduz a despesa.

Na segunda, no debate na FGV, um dos professores presente falou que maior eficiência nas compras públicas na área de saúde poderia levar a economia. Sim, mas a economia teria que ser gasta na mesma área porque se trata de uma despesa vinculada ao crescimento do PIB nominal e assim, não há como ela ser reduzida em relação ao PIB.

E o custei administrativo? Aqui pode ser cortado algo, mas não que vá trazer uma economia substancial. Explico. Vamos supor que metade dos ministérios (excluindo saúde e educação) sejam fechados . Qual seria a economia? 0,58 ponto do PIB. Repito, teríamos que fechar metade dos ministérios. Se fecharmos todos os ministérios (com exceção da saúde e educação) a economia seria de 1,17% do PIB. É possível ter um governo com apenas dois ministérios: saúde e educação? Não.

E o investimento? Aqui daria para cortar, mas não acharia desejável porque a taxa de investimento da economia já está muito baixa. Mas o governo fez isso em 1999 e 2003 porque esse é um dos poucos itens do gasto que se consegue segurar. Se o próximo governo cortar metade do investimento público, em 2015, a economia seria de 0,5 ponto do PIB em um ano.

Em resumo e voltando a pergunta inicial: é possível um ajuste fiscal de até dois pontos do PIB via corte de despesas em um primeiro ano de governo? Não é possível. Para isso ocorrer seria necessário, por exemplo, colocar 25% dos funcionários da União para o olho da rua (0,5 ponto do PIB de economia), acabar com o abono salarial (0,4 ponto do PIB), cortar pela metade o investimento público (0,5 ponto do PIB), e fechar metade dos ministérios (0,6) ponto do PIB. É simplesmente impossível e, corte do investimento público, volta nos anos seguintes. Além disso, o gasto com programas sociais cresceriam e compensariam parte dessa economia.

Assim, aqui vai um conselho de amigo para todos os economistas: não prometam forte queda da despesa pública em um primeiro ano de governo porque não será possível. O importante é mostra para o mercado como será a recuperação do primário e não um ajuste forte em 2015.

Os economistas da campanha eleitoral

Há três tipos de economistas por trás dos candidatos. Por trás do senador Aécio Neves, eu definiria nosso grupo como um grupo bastante eclético, alguns mais liberais do que outros, mas todos nós com uma característica em comum. Temos todos alguma experiência em órgãos diferentes do setor público, sabemos fazer contas, olhamos a evidência empírica, temos forte inserção em debates na academia e setor privado e, dentro ou fora do governo, continuaremos bastantes ativos. Somos um grupo unido, sem preconceitos, acreditamos nas forças de mercado e do papel do estado em promover igualdade de oportunidades e reduzir pobreza.

No nosso caso, acreditamos na importância de o Brasil participar ativamente das cadeias globais de produção e sabemos que será impossível o país ser competitivo em todos os setores da economia, ou seja, não adianta querer se integrar ao resto do mundo e ser competitivo em tudo como parece acreditar alguns economistas do governo. Queremos viabilizar os meios para que o Estado possa investir mais em educação e saúde. Infelizmente, e aqui confesso uma falha nossa, não sabemos como o governo pode aumentar a oferta de serviços públicos para o padrão de primeiro mundo sem crescimento. Na nossa visão, política social e crescimento andam juntas e mente quem diz que a “população não come PIB”. Sem crescimento da economia, o resgate da nossa dívida social será mais lento.

O grupo de economistas por trás da candidata Marina Silva é um grupo brilhante com dois grandes problemas. Primeiro, às vezes usam metáforas  -empresários serão desmamados, Dilma trata empresários como prostitutas, etc.- que aumenta a “zona de vulnerabilidade” deles à ataques do governo.

Ontem em seminário na FGV-SP foi justamente isso que aconteceu quando o Ministro da Fazenda, Guido Mantega,  perguntou em tom de brincadeira  ao presidente da FIESP se ele estava pronto para ser “desmamado”. Meus colegas do PSB precisam compreender que o Ministro da Fazenda Guido Mantega está em plena campanha eleitoral, usa e abusa de sua condição como Ministro para fazer propaganda eleitoral no melhor estilo terrorista (o terrorismo é tão grande que acho que não poderá mais entrar nos EUA). Assim, meus colegas do PSB precisam tomar mais cuidado com as metáforas porque o adversário gosta de dar caneladas.

O outro problema dos meus colegas do PSB é a visão ingênua do setor público e da estrutura do gasto público. Não há como o Governo Central produzir um superávit primário de 2% do PIB em um ano pelo corte da despesa. Vou escrever sobre isso depois. Mas o que eles falam centenas de outros economistas mais velhos e com experiência de governo continuam falando. No caso dos meus colegas do PSB, como são inteligentes, em um ou dois meses aprenderiam rapidamente. O mesmo não se pode falar de economistas que ainda acham que não houve evolução na teoria econômica depois de 1936, quando Keynes publicou a Teoria Geral.

Agora chegamos ao terceiro grupo, o de economistas por trás do partido do governo. Esse grupo de economistas tem a seu favor a crise mundial.  Eles usam e abusam da crise mundial para esconder os seus erros no governo, erros que decorrem de uma visão ingênua e arrogante de micro gerenciamento da economia. Isso não vai mudar e há grande chances de piorar, pois eles continuam achando que conhecem a indústria mais do que os próprios empresários e esses economistas não aprendem. Passam anos no governo e continuam falando a mesma coisa antes e depois. Não há “learning by doing” e nem “learning by studiyng”.

Há ainda algo muito pior neste grupo de economistas que é o processo de autodestruição a que estão submetidos. Eles vivem sempre em conflito interno. Alguns deles condenam as praticas heterodoxas da gestão fiscal, outros acreditam que essas práticas são normais; quase todos gostariam de uma taxa de câmbio mais desvalorizada e acham que taxa de câmbio de equilíbrio decorre da boa ou má vontade do Banco Central; todos aceitam normal uma inflação de 6% ao ano, criticam o Banco Central seja independente ou não como o grande mal da economia, querem resolver todos os nossos problemas de orçamento com o aumento da dívida, e, por fim, fogem da paternidade  da Nova Matriz Econômica como o diabo foge da cruz. Hoje vivemos a situação sui generis de uma política econômica órfã.

Alguns desses economistas fazem uma mea culpa capenga, reconhecem a necessidade de ajustes e dizem que haviam alertado antes para a necessidade de correção de rumo para o seu colega de sala ou de ministério. Mas talvez o mais desonesto é quando promovem a visão que o que está em jogo nesta eleição é o debate entre o bem e o mal, entre os economistas que se preocupam com a redução da desigualdade e com a indústria versus outros economistas que representam o mercado financeiro.

Um grupo grande de economistas do governo ainda está preso na luta de classes do pós-guerra e tem uma visão ingênua dos capitalistas. Os da indústria têm que ser estimulados e controlados e, os do setor financeiro, precisam ser eliminados. Falam de uma tal “grande capital” como se esse ente abstrato fosse o responsável pelo atraso na definição dos marcos regulatórios, excesso de intervenção na economia, etc.

Em resumo, eu me preocupo muito com os “economistas do governo” e tenho zero de preocupação com os economistas que assessoram os candidatos de oposição. O ex-presidente Lula falou ontem que a candidata Marina deveria proibir os seus economista de falarem bobagens. O correto deveria ser o ex-presidenrte “proibir” o governo federal de fazer bobagens, em especial, as bobagens que tiverem início no segundo mandato do ex-presidente Lula e se intensificaram no governo Dilma.

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